Chandelier, Sia

Nunca tinha parado pra ouvir direito a música Chandelier, da Sia. Raramente ouço música pop. E se ouço, nem sempre é com tanta atenção assim. Uma amiga me mostrou essa música na época que ela estourou. Ignorei completamente. I never believe the hype. Pra não dizer que ignorei totalmente, na época achei a música um pouco irritante, por ser dramática demais. Quando estourou por aqui (cerca de um ano atrás) achei o som afetado demais, não curti e deixei estar. Mas há uns 3 dias atrás, mesmo sem nenhum estímulo aparente, esta música ressurgiu como um earworm poderoso na minha cabeça. Sem brincadeira: fiquei o final de semana inteiro com o refrão e a ponte na minha cabeça, em um loop eterno. Relutei muito em escrever sobre essa música, mas enfim, estou a fim então foda-se.

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“Don’t think”

Hoje decidi que deveria ouvir a música com atenção e a ouvi obcessivamente – pois me comporto assim com interesses repentinos. De imediato o som me remeteu às imagens do videoclipe, pois a primeira vez que ouvi a música foi assistindo ao clipe. Antes eu tinha a impressão que se tratava da própria cantora dançando no vídeo, mas hoje ouvindo a voz dela repetidamente me dei conta que a menina que dançava era muito nova pra ser a cantora. E era mesmo: trata-se de Maddie Ziegler, uma pequena dançarina de 13 anos de idade, que interpretou uma mini-Sia no clipe. Depois que li a letra, entendi melhor algumas intenções do clipe, os detalhes escondidos, os quadros, o timing. A pequena dançarina não é só uma mini-réplica da cantora, ela é algo. Mesmo com toda a competência, energia e criatividade, ela é uma folha em branco. E isso é traduzido em uma infinidade de detalhes: o collant bege, a peruca platinada, o olhar cristalino, a androgenia do corpo, a pureza. Bem, para mim, ela ainda tem o corpo de uma criança, embora inegavelmente já seja uma dançarina muito expressiva e competente.

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Won’t look down, won’t open my eyes

Enfim, a primeira vez que ouvi essa música achei que fosse da Rihanna, pra vocês verem como eu não tenho a mínima referência de nada. Tinha achado o sotaque da Sia diferente, mas não parecia inglês britânico nem nada. Hoje descobri que ela é australiana. A voz dela soa um tanto quanto áspera pra mim, mas isso não é um demérito. Pessoalmente, gosto de vozes com texturas, granulares e para mim isso é muito agradável na verdade. Ela não soa jovem, talvez seja isso. A voz dela não é agradável como a da grande maioria das cantoras pop. E Chandelier como um todo, desde a primeira ouvida, não é uma música agradável também. Nas primeiras ouvidas é um tanto quanto insuportável, na verdade. Todo mundo se choca levemente ao ouvir o refrão pela primeira vez. E essa música necessariamente precisa ser repetitiva pra tornar-se razoavelmente tolerável. Sei que é bem escroto dizer isso, mas para mim há um jeito de ouvi-la.

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“Whatever dude”

Eu poderia só ter pensado “que música chata da porra” e ter voltado pra minha vida normalmente, mas por algum motivo isso não ocorreu. Ou até ocorreu, mas só até essa música me assombrar novamente. Para mim, essa música fala basicamente sobre duas coisas: solidão e repressão. Esses são os panos de fundo de tudo referente à esta música. Numa leitura meio rasa e sem muita atenção, acho que dá pra interpretar a letra como algo do tipo “hoje eu vou beber até me dependurar no lustre e não quero que a noite acabe”. Podia ser isso também. Mas pra mim Chandelier tem um certo tipo de melancolia que não é muito aparente, não é óbvia, o que faz com que ela seja estranhamente incomum e familiar. E surpreendentemente, eu não gosto de reggae. Na verdade eu detesto. E Chandelier começa com batida de reggae. Por que essa merda foi ficar na minha cabeça?

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I’m gonna swing from the chandelier, from the chandelier

“Minas do rolê não se magoam com nada. Não consigo sentir nada, quando vou aprender? As coisas acontecem ao meu redor e eu finjo que nada existe. Só querem sair comigo por interesse, mas a grande verdade é que quando eu chego nos lugares me sinto extremamente sozinha. E por isso eu bebo. Bebo pra caralho, até perder a conta. Bebo porque quero ficar tão alta a ponto de subir no lustre e balançar com ele”. Uma folha em branco. Sentir-se completamente sozinha em meio a uma multidão. Sentir-se completamente sozinha mesmo em grupos de amigos. Sentir-se completamente sozinha mesmo com um amante. Incapaz de tomar decisões por si própria. Incapaz de aproveitar a própria companhia. Necessidade de aprovação e aceitação. Algo insustentável que se sustenta, à duras penas. Uma estrutura ausente. Uma perda de controle em detrimento de um outro tipo de abordagem, talvez. Essa personagem, esse algo do qual a Sia fala na música, está em um processo avançado de auto-abandono.

Isso não necessariamente é ruim, mas é preciso saber abandonar-se. Não é possível abandonar-se sendo uma folha em branco, pois não se tem a si mesmo, em primeiro lugar. Então sequer chega a ser um abandono. Não podemos perder algo do qual jamais dispusemos.

A primeira nota do refrão é praticamente um atirar-se de um precipício. É muito contrastante com o início da música. A voz que inicia a música parece que é de alguém que acabou de acordar. E o início do refrão é agressivo e explosivo. Basicamente o refrão é um baita de um grito, e é por isso que irrita. E irrita precisamente porque é um grito que gostaríamos de dar e por algum motivo, não damos, nos privamos. A repressão é tanta que não ousamos sequer fantasiar esse grito. E esse grito serve justamente pra romper um padrão, pois se prestarmos bastante atenção, ele é a única parte não-passiva da música, é a única parte em que algo está efetivamente exposto – mesmo que seja uma fantasia, mesmo que seja apenas um querer. Fisicamente falando, o refrão parece um tanto quanto exaustivo de ser cantado e isso é até angustiante um pouco pois a voz da cantora até enfraquece ao longo dele (algo insustentável que se sustenta).

I’m gonna swing from the chandelier, from the chandelier
I’m gonna live like tomorrow doesn’t exist
Like it doesn’t exist
I’m gonna fly like a bird through the night, feel my tears as they dry

Me apetece bastante a frase “vou viver como se o amanhã não existisse”, mas por um motivo muito particular. Para mim isso se encaixa no conceito zen de viver o presente, do mesmo modo que a frase na mão da garota (“don’t think“, não pense) também se encaixa. Então não se trata de inconsequencia e desnaturamento, pelo contrário: de viver a vida da forma mais atenciosa e consciente possível. Este parece ser o desejo da personagem. Mas a ambiguidade desse refrão é interessante e também tem a questão do movimento pendular ao agarrar-se ao lustre, é um movimento de expansão e retração (“o menor movimento é nefasto”). O que parece ser proposto na letra é justamente o desperdício de vida: “já que tudo é falso, vou beber, ficar louca e subir no lustre, foda-se” já que o Yolo é praticamente o mantra dessa geração. Só que o Yolo pode significar duas coisas inversamente proporcionais:You only live once versus You oughta look out. Então basicamente a personagem da música fica dividida entre viver tudo o que tem pra viver pois a vida é uma só, mas ao mesmo tempo tomando cuidado aí pra não se foder grandão irreversivelmente. É uma situação extrema. É uma situação limite, entre o desperdício e a prudência.

Um tanto quanto torturante para uma música pop, não? Enfim.

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I’m gonna live like tomorrow doesn’t exist

“O sol aparece, eu estou toda zoada. Preciso sair, preciso fugir daqui. Lá vem o constrangimento”. E o ciclo se repete, outra noite, outra festa, outras pessoas, mesma bebedeira, mesmo despropósito, mesma sensações de vazio, tristeza, impotência, solidão, arrependimento, constrangimento. E o ciclo se repete pois tudo o que existe e as coisas como são, são mais fortes que a própria passividade da personagem, que aceita, que precisa, que vai, que é condescendente com a própria situação. Que permite, que suporta, que atura, que tolera. Uma sensação latente de inadequação, talvez, como se dentro desta própria festa existisse alguma outra festa para qual você não foi convidada, da qual você não faz e nunca fará parte. E quando chega a ponte da música, ela parece uma ladainha, parece uma oração de proteção, um mantra, um pedido de ajuda:

And I’m holding on for dear life
Won’t look down, won’t open my eyes
Keep my glass full until morning light
‘Cause I’m just holding on for tonight
Help me, I’m holding on for dear life

“Estou aguentando firme pela querida vida. Vou aguentar só mais por esta noite. Vou deixar meu copo cheio até de manhã. A vida é vertiginosa demais, por isso eu não vou olhar pra baixo, não vou nem abrir meus olhos. Me ajude”. É alguém que quer se perder, mas na verdade se caga muito de medo de não criar asas durante a queda. É alguém que quer perder o controle, quer se abandonar, mas só o faz com algum tipo de aprovação externa. É pesado demais responsabilizar-se por esse tipo de coisa sozinha. Outra coisa que acho curiosa seria a tradução da frase “‘cause I’m just holding on for tonight”. Hold on pode ter mais de um significado em português: pode significar continuar, persistir, manter-se firme, segurar e esperar. Então fica meio dúbio se ela está só persistindo por hoje a noite ou se ela está só esperando, ou guardando algo para esta noite especial.

Isso fica ainda mais nítido no final da música, pois no final desta ponte ao repetir várias vezes “‘Cause I’m just holding on for tonight” a frase perde o sentido inicial (persistir, tolerar) e se torna mais leve, talvez (estou guardando o melhor para esta noite), uma vez que os instrumentos também vão sumindo um a um. E então ela finalmente se perde e se abandona – mas talvez não exatamente da forma que esperava. Pois você está no palco e existe uma platéia que não quer ouvir suas orações, mas o mesmo discurso, repetido e repetitivo, para que eles não precisem se sentir tão estranhos também.

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‘Cause I’m just holding on for tonight

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