Não

(…)

– Eu não sei dizer não. Eu queria saber dizer não. Tipo… Dizer não pra gente que a gente não tá a fim é fácil e simples. Mas dizer não pra alguém que a gente gosta e já tem um histórico, é meio tenso. Pessoalmente, me sinto horrível.
– Por que você se sente horrível?
– Porque o outro vai ficar triste. E possivelmente vai criar um climão. E vai ser “por minha causa”.
– Você não é responsável pelo que os outros sentem. Além disso, você pode muito bem se explicar e, ao ser honesta, você faz um favor a si e ao outro. Se sacrificando você faz um deserviço aos dois. 
– Sim, bem. Eu queria *mesmo* que fosse tão simples quanto parece.
– Você pode ser severa e rígida com os outros, desde que você seja clara acerca do que você realmente quer. E as pessoas GOSTAM disso.
– Ah, tem gente que não gosta não. Pessoalmente eu prefiro que as pessoas sejam assim comigo: honestas, de verdade. Mas tenho dificuldades em ser assim eu mesma com os outros.
– As pessoas não gostam inicialmente porque sabem que no final conseguem o que querem. Porque sabem que se espernearem e gritarem o suficiente, você volta atrás, dizendo o sim que elas querem. 
– Grandes merda vencer no grito. Isso não é vencer. E no fundo essas pessoas sabem disso.
– Sim. E é por isso que essas pessoas só respeitam quem as coloca na linha. 
– Leia-se: quem consegue escrotizar num nível ainda mais surreal que a própria pessoa. Olha, na boa, eu não consigo ser assim. Mesmo. Não nasci pra educar ninguém.
– Além disso, pra algumas pessoas irredutíveis não existe muita opção: ou você põe a pessoa na linha ou vaza, pois deixar as coisas acontecerem naturalmente é a receita pro fracasso. Você tem que entender que as pessoas não só precisam como querem limites. Elas querem que você coloque as regras na mesa.
– Acho que eu queria ser assim. Mas não consigo. Tenho uma dificuldade absurda com isso. Queria poder encontrar um meio termo. .
– E não adianta falar da boca para fora. Pois se sabem que você tá falando aquilo tudo mas que vão conseguir passar por cima de você, não adianta nada. It is better to be feared, than loved. Essa frase é uma grande babaquice, mas ela ilustra essa dinâmica.
– Eu odeio essa frase.😞
– Eu não acho que é *melhor* ser temido. Mas a questão é que certas pessoas só vão te respeitar se você impuser limites e no fundo elas vão gostar disso.
Pois tira o peso da responsabilidade dos ombros delas. Agora ela sabe o que você quer e não precisa ficar adivinhando.
– Eu acho isso muito ruim. Fico pensando se não tem outro modo. Mas sim, é verdade. Isso sempre aconteceu comigo mais no trabalho, e de forma meio involuntária. Porque eu sou mega passiva. Mas quando as pessoas me vêem explicando as coisas, as coisas mudam de figura. Mas eu não me imponho, só explico. Por algum motivo acho meio perverso isso de “ah, eles te tratavam assim mas era porque você deixava”. Acho horrível ter que viver pensando que pessoas que aparentemente gostam de mim na realidade “have their own agenda”… Isso é escrotíssimo. Apesar de muito real.
– Você pode ficar procurando ad infinitum quem estava certo e quem estava errado ou você pode deixar claro o que você está sentindo e o que você precisa.
– Acho que isso tudo implica que eu nunca vou poder confiar nas pessoas, no fim das contas. Acho ruim ter de viver desconfiada.
– Mas por que você precisa confiar nos outros? Você é agente do governo? Se os outros tem their own agenda, porque você também não pode ter a sua own agenda? Basta deixar tudo claro. A questão é que você acha que assim que você disser o que quer a pessoa vai te rejeitar. E portanto você tem que se adaptar ao que ela quer. Pois vai, somos de boas, não vamos criar caso por pouca coisa, mas de grão em grão você vai se aprisionando. 
– Na verdade também róla um lance do tipo, eu tomar a decisão, falar sobre essa decisão para o outro, o outro aceitar e eu me arrepender. Sou uma imbecil, cara. Na real, eu tenho mais medo de como eu vou reagir ao troço do que a pessoa. Se a pessoa não aceitar, vou ficar bolada. Se a pessoa aceitar, vou ficar bolada. É tudo muito patético na verdade. Foda é que eu me pego agindo que nem uma menina de 13 anos quando penso demais nessas coisas. Talvez eu devesse aceitar que as coisas são assim mesmo. E que não vão tão mudar tão em breve. Eu sou resignada. E ir contra isso é ir contra a minha natureza.

(…)

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