Paloma

Paloma, o pássaro, não vende suas asas para trabalho nenhum. Paloma prefere é meditar pousada nos fios balançando. Um poleiro bambo por onde migra energia elétrica que dá ritmo a um trepidar sutil, aproveitado somente pelos pássaros sem filhos. Essas aves só estão ocupadas uma vez por dia, quando coletam grãos e os levam para sua kitnet de palha. Paloma é um desses pássaros, com a diferença que seu ninho é um duplex de barro deixado pelo seu pai, João, que fora atingido anteontem por uma estilingada. Ela nem se lembra disso, não por frieza, mas é que os pássaros estão sempre presentes e não carregam nada (nem suas próprias fezes). No fio, Paloma permanece, entre as indas e vindas da vida de ave, fica ali sentindo a eletricidade reverberar: a energia começa a subir pelas suas perninhas de bicicleta, e atravessa musicalmente seus ossos ocos cooperando na produção do pio. E que pio! Todas as manhãs, no poste da esquina de encontro entre duas correntes de ventos opostos, Paloma ressoa seu canto: que é uma mistura de fio-fio com flauta dentro d´água. Biólogos já tentaram entrevistá-la. Ela, claro, fugiu. Psicopatas de mentes engaioladas armam arapucas intermináveis, desconhecendo que todo Sabiá é sábio. E Paloma sabe disso, por isso vive livre.

(Cometa Cavalo)

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