Mulheres que encolhem (Lily Myers)

Do outro lado da mesa na cozinha, minha mãe sorri com o vinho tinto que toma em um copo milimetrado.
Ela diz que não se priva,
Mas aprendi a encontrar nuances em cada movimento do seu garfo.
Em cada ruga na sua testa enquanto me oferecia os pedaços não comidos do seu prato.
Percebi que ela apenas janta quando eu sugiro.
Imagino o que ela faça quando não estou lá para sugerir.

Talvez seja por isso que minha casa parece maior cada vez que retorno; é proporcional.
Enquanto ela encolhe o espaço em torno dela parece incrivelmente vasto.
Ela diminui enquanto meu pai cresce. A barriga dele ficou redonda com vinho, noites até mais tarde, ostras, poesia. Teve uma namorada nova que era gordinha quando adolescente, mas o meu pai agora diz que ela é “louca por frutas”.

Aconteceu o mesmo com os pais dele;
Enquanto a minha avó se tornava frágil e angular o marido dela se inchou com bochechas redondas, um redondo estômago
e eu imagino se minha linhagem é uma de mulheres que encolhem
fazendo espaço para a entrada de homens em suas vidas
não sabendo como ocupar esses espaços depois que eles as deixam.

Fui ensinada a ser acomodada.
Meu irmão nunca pensa antes de falar.
Fui ensinada a filtrar.
“Como alguém pode ter uma relação com a comida?” ele pergunta, rindo, enquanto eu como a sopa de feijão por que tem menos carboidratos.
Quero dizer: viemos da diferença, Jonas,
você foi ensinado a crescer
Fui ensinada a crescer pra dentro
Você aprendeu com nosso pai em como emitir, produzir, desenrolar cada pensamento da sua língua com tanta confiança, você costumava perder sua voz a cada semana de tanto gritar
Eu aprendi a absorver
Recebi aulas da nossa mãe sobre como criar espaço à minha volta
Aprendi a ler os nós na sua testa enquanto os meninos saíam para comer ostras
e eu nunca quis replicá-la, mas
passe tempo suficiente próximo de alguém que você adquire seus hábitos

É por isso que mulheres na minha família tem encolhido por décadas.
Aprendemos umas com as outras, a forma que cada geração ensinou a outra a como costurar silêncio encolhedor entre os tópicos
que ainda posso sentir toda vez que entro nessa casa que sempre cresce,
coçando a pele,
pegando todos os hábitos que a minha mãe involuntariamente deixou cair como pedaços de papel amassado
dos seus bolsos em suas incontáveis viagens do quarto para cozinha para o quarto de novo,
Noites que eu a ouvi rastejar para comer iogurte natural no escuro, uma fugitiva roubando calorias as quais ela não sente que tem direito.
Decidindo quantos pedaços são demais.
Quanto espaço ele merece ocupar.

Observando essa luta eu nem a imito nem odeio,
E eu não quero mais fazer nenhum dos dois
Mas o fardo dessa casa me seguiu em todo o país
Eu fiz cinco perguntas na aula de genética hoje e todas começaram com a palavra “desculpe”.
Eu não conheço os requerimentos para um bacharelado em sociologia porque eu passei o encontro inteiro decidindo se eu poderia ou não pegar outro pedaço de pizza
uma obsessão circular que eu nunca quis, mas

a herança é acidental
ainda olhando para mim com os lábios manchados de vinho do outro lado da mesa da cozinha.

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