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Não tenho muitas pessoas que considero amigas. Tenho muitas pessoas próximas sim, mas isso não é garantia nenhuma de amizade. Ter um bom networking não significa ter boas amizades, são coisas bem diferentes. Alguns amigos próximos meus dizem me invejar pelo modo que eu me comunico com as pessoas. Mas tendo um pouco de autocrítica, a verdade é que eu me comunico mal pra caralho com as pessoas. A verdade é que sou realmente péssima nisso. De verdade. Ok, sem tanta autodepreciação assim: esse é um ponto que eu gostaria – e ultimamente tenho me visto em situações que preciso – de melhorar bastante na minha vida.

Sou bem esquisita. Os conceitos de algumas coisas pra mim divergem do que é estabelecido e entendido pela maioria das pessoas. Um exemplo disso é que hoje, um amigo de longa data, quase irmão, fez uma publicação que considerei de um conservadorismo meio bobo. Deixei claro que não concordo e foi isso. Não tentei ofendê-lo, nem repreendê-lo de forma constrangedora, mas muitas pessoas acreditam que uma intimidade de muitos anos de amizade permite isso. Por algum motivo, jamais conseguiria pois meu conceito de intimidade é outro. Por quanto mais tempo eu conheço a pessoa, menos eu vou esculachar com ela e vou tentar sempre uma abordagem amigável.

Se você tem algum valor pra mim como pessoa, de verdade, vou me esforçar pra não te esculachar. Seja em público. Seja no privado. E isso não é falsidade não. Só acho desnecessário mesmo agredir quem gostamos. Não acredito em tough love e para mim não existe isso de “intimidade é uma merda”. Não é não. Não tem que ser. Mas demorei pra chegar neste entendimento. Eu demoro demais, com tudo na vida. Demoro e não mudo rápido. Gosto de mudanças e raramente me oponho a elas, mas não sou afeita à mudanças constantes, à falta de linearidade. Não consigo acompanhar. Por muito tempo acreditei que houvesse algo errado comigo. Hoje sei que nada é permanentemente errado. As coisas apenas são.

Sinto que esse possível problema comunicacional seja herdado, aprendido ao longo dos anos com a convivência com meus pais. Basta eu observá-los para chegar nessa conclusão. Não se ouvem. Nem se falam. É um eterno zero a zero, numa eterna insatisfação. Tudo o que existe é um comodismo e uma fachada. Às vezes isso acontece por aqui, em situações práticas inclusive. Devo observar isso com mais cuidado e verificar se quero/preciso mudar isso ou não e em quais contextos quero que isso mude. Às vezes preciso falar e isso é realmente importante. Mas nem sempre. Sou melhor observando. Sou muito melhor observando.

Minhas observações são processadas de forma lenta. Eu sou bastante lenta de modo geral. Não sei realizar julgamentos rápidos. O que você achou? Bom? Ruim? Lindo? Abominável? Depois de 5 minutos, eu sinceramente não sei. Depois de uma hora, tampouco. Depois de uns dias, talvez ainda não. Talvez nunca inclusive. Sempre acho que não devo uma resposta a ninguém, sobre nada. Só se eu quiser. Só se sentir que devo, se julgar necessário (nunca julgo, raramente acho). E quanto mais sou pressionada em relação a isso, pior fica. Falo pouco, observo e sinto mais. As coisas, para mim, precisam primeiro fazer sentido. Para só então terem algum tipo de significado. Tudo é um processo. Então talvez essa ânsia de comunicação não se aplique em tudo na minha vida, mesmo. Talvez eu não deva mesmo dar às pessoas o que elas pedem sempre.

Sou assim com as coisas, sou assim com as pessoas. Raramente dou o devido crédito para o que elas dizem. Palavras são só isso: palavras. São só e são tudo isso. São limitadas e limitantes por natureza. E em última instância são sempre apenas isso mesmo: palavras. Sempre insuficientes pra dizer, significar qualquer coisa. É o que temos. Mas não as compro sempre. Palavras enganam. Ou melhor, palavras trapaceiam. A si mesmas. A quem as profere. Gosto de observar o que não é visível aos olhos. A forma que a pessoa pisca. A forma que se movimenta, que seu corpo se movimenta. Sua respiração. Uma marca de corte no dedo indicador. A entonação ou empostação de voz, durante a fala. A forma que me toca ou não. Essas coisas sempre me disseram muito mais que as próprias palavras. É a partir delas que o mundo se abre pra mim.

Antigamente eu desconfiava dessa minha habilidade. Mas há cerca de três anos foi que notei que isso é algo que eu não posso deixar de levar em consideração. Eu sempre quero todas as palavras não ditas. Todas as palavras escondidas. Só preciso pensar nisso de forma mais sóbria, pois pra mim ainda se trata de uma novidade. Pessoas pra mim são como borboletas e eu sou uma colecionadora nesse sentido. Busco uma certa variedade, mas efetivamente me oponho a confrontos gratuitos simplesmente porque acho que a vida é muito curta pra ficar perdendo tempo com isso. É curta demais pra passar desta forma. Sou lenta sim, mas não gosto de sentir que estou desperdiçando o tempo.

Gosto das coisas em si. De observação. De apreensão. De significado. De isolamento. Não “produzo” essas coisas: eu sou essas coisas. Na vida. Isso não é produzido por mim porque não há um esforço, não há ‘algo especial’ acontecendo para que eu aja assim. Tudo acontece, o tempo todo. A vida me acontece e eu reajo assim à ela. Não desvinculo a minha própria vida de tudo o que contém beleza, verdade e significado. “Minha vida é minha mensagem”. Entendo que as coisas não são fáceis. E as devoro, do meu modo. Meu modo de digerir a vida irrita algumas pessoas mais ágeis e mais ávidas. Muitas vezes me sinto como uma cobra, uma cobra enorme que ao mesmo tempo que engole a presa de uma vez, faz sua refeição lentamente, arrastando-se, empurrando o outro para dentro de si, até que em algum momento aquilo se torne essência, refeição. Energia.

Sou rápida só quando preciso, de forma impulsiva, sempre.

Sou lenta e, por isso, as pessoas não me têm.

E quase sempre, tudo parece se consumir, em mim.

 

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