Fim de ciclo

Nesta última semana de junho, meu all star preto que eu tinha comprado há uns 3 anos furou na sola. Um buraco, enorme. Irremendável. O tênis ficou inutilizado. Não tenho outro tênis preto, tenho 2 vermelhos e um de trekking, marrom. Preciso de um que seja preto. Não tenho muito o que fazer a não ser jogá-lo fora e comprar outro, novo. Estou dividida entre comprar novamente um all star ou um adidas. Acho que já deu de all star pra mim. Acho que é possível variar um pouco, mas ainda não tomei uma decisão. Na verdade eu nunca liguei pra marcas, só busco algo que me traga conforto e tenha um bom custo benefício. A durabilidade de qualquer tênis de uso intenso é 3 anos, independente de marca.

Dois dias depois, o meu perfume da Roger & Gallet, acabou na minha mão sem eu perceber. Fiquei atônita, olhando o vidro e me perguntando “mas já?”. Sim, já. Sim, agora. Uma borrifada a mais e lá se tinha ido o perfume que me acompanhou por tantos meses. Era um perfume encorpado, que permanecia comigo até o fim do dia. Tinha dificuldade de usá-lo no início, depois me acostumei. Joguei o vidro vazio no lixo e comecei a pensar em comprar outra essência da Roger & Gallet mesmo, porque eles tem várias excelentes. Mantenho sempre três perfumes na minha penteadeira – notas de fundo, de cabeça e de coração. Sempre foi o suficiente pra mim. Colônias de corpo são outra coisa, não são perfume. Agora estou só com um perfume e enfim, preciso resolver isso em algum momento.

Achei que nada mais fosse acabar em junho quando ontem, no metrô, indo fazer uma cobertura de tatuagem, a pedra do meu anel (vagabundo) preferido caiu. E isso me fez eu me sentir muito triste mesmo. Há algum tempo tenho preferido comprar anéis de prata, pela durabilidade, porque eles não descascam com o tempo. Parecem indestrutíveis. Só parecem. Enfim, anéis de prata tem me servido bem até então. Mas eu gostava desse anel vagabundo, com uma pedra preta falsa no meio. Ela ter caído pra mim foi como um soco no estômago, um aviso bem claro da vida. A amiga que estava comigo disse que eu poderia colá-lo de novo mas apenas me limitei a dizer que “o tempo desse anel já foi”. Fiquei segurando o que sobrou do anel na minha mão, sem coragem – porém com muita vontade – de jogá-lo no lixo logo.

Minha amiga me pediu o anel e eu dei pra ela. Sei lá o que ela vai fazer com ele, espero que jogue fora. Acho que ela viu a minha cara e ficou com dó de mim, de eu ter de fazer aquilo (jogar fora, me livrar dele) sozinha. Enfim, o que importa é que já era…

É sempre difícil entender que muitas coisas mudam à minha revelia. E que preciso me adaptar e me readaptar a novos cenários vez e outra. Nesse fim de junho coisas físicas minhas tem acabado e essa sincronicidade de finais não é a toa. Os objetos me fizeram prestar atenção no que ocorre na minha própria vida. E é, de fato, o fim de um ciclo importante pra mim e que significará muitas outras coisas. Esta semana também terminam as aulas da minha especialização. Fico pensando se alguma coisa, além das óbvias e previsíveis, irão mudar na minha vida. Não vou negá-las, mas não sei se quero mudanças agora. Mas se elas acontecerem, não vou resistir à elas também.

Meu semestre acaba oficialmente dia 5 de julho e este será um dia particularmente bom, para mim. Espero. Acredito. E muitas coisas aconteceram nesse semestre. Coisas que podem não ter definido nada – nada chegou a ser um divisor de águas em nenhum nível – mas coisas boas sim, que esclareceram e principalmente reforçaram várias coisas pra mim. E foi tudo bem cansativo. Foi exaustivo, na verdade. Houveram dias terríveis – eles sempre existem. Mas eu estou aqui. E às vezes é só o que importa: que eu acabe com as coisas e não me deixar acabar por elas.

Há muito tempo a minha vida tem exigido de mim um papel mais ativo nesse sentido. Quase sempre fui extremamente passiva, deixando que muitas coisas acontecessem comigo sempre por acaso, nunca por iniciativa ou uma busca própria. A vida tem me pedido várias coisas. Entre essas coisas estão que eu me posicione e que tenha uma postura mais ativa em relação às minhas escolhas, responsabilidades, quereres. A impressão que eu tenho às vezes é que, olhando a minha vida, a vida que eu levo, tudo isso já existe e meio que já aconteceu. Já sou ativa. Já tenho uma postura. Já fiz algumas escolhas: basta eu olhar pra elas e para os aprendizados que tive. Mas se eu olho com atenção, a (estranha) sensação que tenho é de que essas coisas não ocorreram de fato. Como se para que elas existirem de fato fosse necessária – praticamente obrigatória – uma renovação constante. Constante. E isso não vai ser algo fácil de empreender. Mas eu preciso começar, de algum modo.

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