Hearteater

Aqui na rua de casa existem 2 churrascarias. Nunca me lembro se são dos mesmos donos. Servem basicamente as mesmas coisas. Uma mais próxima da minha casa, tem um atendimento melhor. A outra, um atendimento desleixado. Não retornei – nem retornarei mais – nesta última. Moro nesta rua desde o início de 2013. E muita coisa já me aconteceu de lá para cá. Mas algumas coisas não mudam muito. Nesses dois anos de residência por aqui eu criei uma espécie de hábito nessa churrascaria que costumo frequentar. De dois em dois meses eu apareço, sento sempre na mesma mesa, na mesma cadeira e peço exatamente a mesma coisa. Como se fosse um ritual. E quase sempre vou à noite. Como tudo lentamente e vou embora. Os garçons já sabiam quem eu era. A mulher que sempre vem sozinha e come sempre a mesma coisa: um espeto de corações de galinha e meia porção de fritas. Sempre tentavam prever meus pedidos, por mais que já soubessem o que eu pediria. Enfim… Hoje fui lá novamente. Uma noite qualquer, voltando do trabalho, nada em especial mesmo. Sentei na mesma mesa, no mesmo lugar e fiz o mesmo pedido. Sempre sondo outros pedidos, nunca tenho coragem de fazê-los. Especialmente hoje o garçom me falou que os pratos executivos são mais baratos e melhores. Recusei. Pedi o de sempre. Mas hoje aconteceu algo diferente… Hoje eu me frustrei um pouco. Os corações vieram com um cheiro estranho e vieram torrados. Eles nunca vem desse jeito. Comi e o gosto não estava estranho. Mas a sensação que eu tinha era a de estar comendo um coração apodrecido. Bem, de certa forma, não deixava de ser. De repente, me senti triste, com aquele coração rançoso na boca. Afastei o prato e deixei de comer. Eu ia pagar, lógico. Mas não senti vontade de levar pra casa e nem mesmo de terminar de comer aquela porção. Aquilo havia finalmente chegado ao fim. Queria outra coisa. Não sei ainda exatamente o quê, mas já sei que não é mais isso. Pedi uma coca. Pedi a conta. Paguei e fui embora. Talvez da próxima vez eu peça um prato executivo mesmo.

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