A Arte de Pedir, da Amanda Palmer

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Se não me engano, quem me apresentou os Dresden Dolls foi um amigo muito querido de Porto Alegre, por volta de 2007/2008. Não conhecia a banda e gostei logo de cara. É curioso isso mas eu nunca acompanho a carreira dos meus artistas preferidos muito de perto, eu apenas me limito a desfrutar da arte deles. Apesar de conhecer as músicas mais famosas do Dresden Dolls como “Coin Operated Boy” e “Girl Anachronism” (e eu gosto dessas músicas) outras têm mais minha atenção como “Bad Habit”, “Sex Changes” e “Gravity”. Nem me lembro quando o Dresden Dolls parou de tocar junto, faz alguns anos já. Acho que a única notícia que me lembro de ter pescado na época foi quando a Amanda Palmer começou a namorar o Neil Gaiman. Fiquei emocionada pois para mim ela sempre foi como uma personagem do Gaiman que tivesse ganhado vida. Era assim que eu a via e isso só ficou mais claro quando fiquei sabendo que eles estavam juntos. Também sempre soube que a Amanda Palmer tinha um blog e um twitter e que a comunicação com os fãs era bastante intensa. Fiquei sabendo da carreira solo e do lance do Kickstarter meio que por cima, só não sabia a dimensão e a intensidade disso tudo, até ler o The Art of Asking (A Arte de Pedir, que já deve ter saído pela editora Intrínseca).

Não quis esperar, pedi o livro em inglês mesmo e em janeiro eu já estava com ele. Rabisquei o livro inteiro, mesmo sabendo que alguém vai poder ler depois. Queria sentir que o livro fosse meu de algum modo. Eu sabia que ela tinha sido uma estátua viva por algum tempo, mas não sabia que ela tinha sido uma dominatrix profissional e uma stripper, por exemplo. Em alguma parte do livro ela cita todas as coisas que ela já fez e o quanto cobrava por cada uma delas. Eu achava que o livro fosse ser, de algum modo, uma coletânea de dicas ou ainda um modelo de negócios para “conseguir coisas” pedindo por elas. Mas não é nada disso, a coisa toda é um pouco mais pragmática e, eu acredito, única. É um livro de uma pessoa contando uma história sobre como as coisas funcionaram pra ela, como as coisas se deram: não exatamente sobre como objetivamente se fazer para “ter sucesso” e/ou “chegar ao topo”. Também não é um livro sobre como sermos mais humildes e aprendermos a pedir coisas. Esqueça isso, o livro não tem nada a ver com humildade. Para mim é um livro sobre graciosidade e confiança. E também sobre conexão, mas isso fica em segundo plano na verdade. Querendo ou não, essas características – graciosidade & confiança – fazem parte da Palmer e de alguns artistas. Mas não de todos.

Para mim o assunto conexão fica em segundo plano pois a forma de criar conexão com o público varia de artista para artista: por incrível que pareça, nem todos os artistas confiam (ou querem confiar) na interação com o seu próprio público. Nem todos necessariamente tem graciosidade ao criar uma conexão. Muitos querem chocar gratuitamente, angustiar, causar sentimentos e sensações variadas nas pessoas (nem sempre boas ou positivas). Nem sempre é gracioso, mesmo porque não acredito que o único objetivo de qualquer arte se reduza à isso, mas a conexão sempre existe (por pior que ela seja) por isso a considero mais neutra do que positiva. Até artistas com um público reduzido podem ser financiados da mesma forma, via Patreon ou outra plataforma de financiamento via crowdsourcing como o Kickstarter. “Poucas pessoas te amando de perto, mas te amando o suficiente”. Há público para tudo, de fato e hoje em dia há público no mundo inteiro, com a internet.

Que artistas são seres com egos inflados muita gente já sabe. Mas uma coisa é narcisismo e outra é conexão de fato. Às vezes essas características tem intersecção, mas isso não é a regra. Há uma frase no livro em que a Amanda diz que a ideia seria a de “um mundo em que as pessoas não pensem em arte apenas como um produto, mas como um relacionamento”. Pra qualquer pessoa mais racional, esse tipo de pensamento é idealista demais, meio delirante até. Ou seja, você não vai querer extorquir ninguém porque, em um relacionamento, as pessoas simplesmente vão querer se ajudar e te ajudar apenas por você ser quem é como artista. Elas vão querer que “você aconteça”. Pode sim ser rentável, mas é menos mercantilista do que parece, pois a troca é peça fundamental de tudo. E há, claro, confiança também. É menos uma relação de poder do que parece ser, por isso que a Amanda Palmer foi tão julgada e criticada quando começou a “fazer dinheiro”, mesmo porque ao que parece nenhum artista pode fazer dinheiro… Para mim, um relacionamento é bem diferente de uma relação de poder. É espontaneidade versus obrigatoriedade. Ela não obrigou ninguém a dar dinheiro pra financiar suas coisas: as pessoas fizeram isso porque quiseram.

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A partir desse relacionamento – como em todo relacionamento – o público cria empatia com o artista e compreende sua complexidade, seus hiatos, as dificuldades pelas quais passam durante todo seu processo criativo. E mais que isso: o público tem confiança na entrega. Enxergam uma pessoa de fato, não uma jukebox. Claro: muitos artistas detestam isso, preferem o distanciamento de algum modo. Seja porque não querem ser confundidos com a arte que fazem (se distanciam do que produzem), ou porque não querem que esse relacionamento interfira no processo criativo, pra não se sentirem pressionados de algum modo ou ainda por conta do ego, querem (preferem) ser vistos em pedestais. Os motivos podem ser vários. Não é o caso da Amanda, não ao menos em primeira instância. Para ela, a própria troca e a entrega são a base do negócio, são o negócio em si. E isso vai além do que ela produz como artista: ela oferece, na medida do possível, suporte emocional aos fãs (e eu acho isso uma característica bem marcante nela). É um afeto mais humano, menos endeusado, onde ela não tem as respostas pra tudo. Artistas que baseiam o seu fazer em modelos de negócio pré estabelecidos ou seguem determinados nichos não pedem ajuda para uma comunidade de fãs pois, depois da fama (ou de qualquer outro tipo de reconhecimento), acreditam sinceramente que já deveriam obter determinadas coisas “por direito”. As coisas podem funcionar deste modo? Sim, podem. É assim que funciona “desde sempre” e tem funcionado até hoje, não? Mas nisso está subentendido um contrato estático que não é passível de renovação e não um relacionamento contínuo, flexível.

O que acontece é que o fato de conseguir muito dinheiro no Kickstarter para financiar turnês, salários de músicos fixos e um disco (sim, era um dinheiro que já tinha objetivos e destinação fixa), foi um tanto quanto disruptivo para o que chamam de ‘indústria da música’ e, claro, muita gente se chocou com isso – inclusive outros músicos. É terrível perceber que alguém está ganhando uma quantidade obscena de dinheiro, sendo que você está há muito tempo tentando fazer o mesmo. Vários músicos que compareciam em shows dela como participantes reclamaram de não serem pagos em suas apresentações, sendo que eles compareciam de modo espontâneo, em princípio. Fica aí então uma situação que não é pacífica, pois a impressão que se tem é que esses músicos “entraram de gaiato no navio”. É sim bastante impressionante ver que ela levantou um milhão pra um projeto que ela queria concretizar. Mas as pessoas só enxergam os números e não a história por trás desses números tão obscenos. A interação e a aproximação absurda que a Palmer e o Dresden Dolls tinham com os fãs, cultivada por anos a fio, pessoa por pessoa praticamente. Todos os meet & greets. Todas as trocas de emails. Todo vínculo festivo em cada encontro. Esse tipo de afeto é por si só disruptivo. E paradoxalmente é contínuo, uma vez que pouca coisa – que não ela mesma e o que ela faz – garante que ela manterá o apoio dos fãs, indefinidamente.

O que a Amanda propõe vai além do dinheiro e isso é muito difícil de conseguir enxergar, se pensarmos que estamos num mundo em que o contexto é opressoramente materialista e desprovido de afeto em qualquer nível. Em algum momento foi dito algo sobre ser “olhado” e ser “enxergado”. Ninguém gosta de ser olhado, todos querem ser enxergados. Quando somos de fato enxergados, compreendidos, temos um momento de conexão. E é nesse momento – e apenas nele – que as coisas são capazes de se transformar. Essa proximidade da Palmer com os fãs é uma via de mão dupla pois além de ser enxergada por eles, ela os enxerga – ou enxerga a multidão, na medida do possível. E pedir para ser enxergado é um pedido arriscadíssimo. É preciso uma confiança (e uma auto-confiança) muito grande para isso. E ao mesmo tempo, é uma brincadeira de criança pois me lembra aquela “brincadeira de sério”.

Esse jogo consiste em olhar para o outro pelo máximo de tempo possível, sem rir, sorrir ou piscar. Quem fizer qualquer uma dessas coisas primeiro, perde. É um jogo difícil para crianças pois elas vivem sorrindo e rindo, ainda mais quando estão entre amigos. É a tendência e a natureza delas. Foi uma natureza quase similar a essa que acredito que Marina Abramovic pretendeu confrontar com a performance The artist is present. Ao enxergarmos o outro, enxergamos também a nós mesmos. Pedir (e receber) seja o que for, é difícil para qualquer pessoa. E as pessoas não pedem coisas por motivos variados, mas o motivo mais comum é o medo: de se sentir vulnerável, de rejeição, de parecer fraco, de não ser o suficiente. Pedir é confiar e qualquer tipo de confiança, envolve risco. E quando o ato de pedir, se arriscar e confiar se torna um exercício, percebemos que é possível nos julgarmos menos, e de forma menos severa, abdicando do medo (que é um sentimento centralizador) em função da abundância. Coisas ruins acontecem? Claro. Muita coisa ruim acontece com gente que não merece. Mas é preciso viver um dia de cada vez.

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O que eu não gostei no livro foi que eu me emocionei demais e muito repetidamente. Mas não sei, talvez isso seja mais um problema meu, por ser meio sensível, que do livro em si. E sei lá, isso me parece inconveniente às vezes pois me perturba de prestar atenção no que está sendo dito, no motivo do livro como um todo. Se emocionar demais me distrai das coisas importantes. Inclusive já abandonei outras leituras por conta disso (uma delas é o Thinking Fast and Slow do Daniel Kahneman, que preciso voltar a ler inclusive). É muito emotivo e por vezes muito egocêntrico também… Umas comparações estranhas, enfim, umas coisas que eu achei nada a ver mas deixei passar batido, enfim ela não é mesmo uma escritora e isso não me impediu de continuar gostando do livro. E convenhamos que exigir que uma artista não seja egocêntrica ao seu próprio modo né, peralá… Meio difícil.

De modo geral, eu gostei bastante do livro, pois gosto de escritas confessionais e de não-ficção. E mesmo que o livro seja auto-biográfico, sinto que aprendi uma porção de coisas principalmente sobre pessoas e relacionamentos, muito mais do que simplesmente saber mais sobre “a vida da Amanda Palmer e o que ela fez pra ficar rica”. Graciosidade, confiança e conexão para mim foram as três palavras chave do livro. Pra quem não é escritora e nunca tinha escrito nada antes, o livro está muito bom sim. A narrativa tenta ser linear – mas não é muito – então os capítulos (que na verdade tratam sempre o mesmo assunto, enxergado por diferentes perspectivas) ficam em suspenso e isso me agrada, pois o livro não é bagunçado, em nenhum momento me senti perdida. Foi um spin-off excelente e necessário do Ted Talk que ela fez, oferecendo uma perspectiva muito mais ampla sobre quem ela é e sobre o histórico da carreira até os dias de hoje.

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