Maldade

“Você é má. É por isso que eu te amo”.

Isso me parece como uma velha sina… Um papel ao qual eu me presto vez e outra – involuntariamente – e pelo qual me enxergam, efetivamente. E não vejo isso mudando de algum modo. Estou acostumada a ser mais gostada quando mostro o que eu considero que há de pior em mim. Ninguém nunca gostou de mim quando fui uma pessoa boa. Apaixonada. Entregue. Leal. Isso sempre foi sistematicamente desprezado e desvalorizado. Confesso até mesmo que, como amante, sendo assim e agindo dessa forma, tudo é bastante mediano, mesmo. Eu mesma sinto isso.

Sempre preferem a filha da puta. A que mente. A que é cheia de ódio e rancor. A que faz coisas erradas. Sempre gostam de tirar a minha máscara. De me dizer que eu não sou isso tudo. Eu preciso estar sempre sendo uma farsa pra alguém. Gostam de fazer coisas comigo e isso não significa, nem de longe, que gostem de mim. Me torno um espelho, só que eu sou mais fácil de quebrar. E também um bode expiatório que sempre acaba sendo sacrificado, pra expiar os pecados de todo mundo. O simples ato de me apaixonar e me entregar de fato se tornou sinônimo de me deitar na mesa ritual e aguardar pelo momento oportuno de sacrifício. Eu vejo essas coisas acontecendo comigo, repetidamente.

Essa forma idealizada, que eu tenho de sentir e demonstrar as coisas, ninguém gosta disso. Ninguém entende isso. Gostam da minha crueza. Gostam de quando sou fetiche. Quando provoco revoltas. Quando me distancio e me torno outras coisas, que, para mim, são completamente desprezíveis. Não gosto, nem desgosto disso: percebo como um tipo. É um tipinho que eu faço. Uma máscara qualquer que eu uso e que atrai, mas que para mim mesma não faz a menor diferença, sinceramente.

Acho que tenho sentimentos mistos em relação a isso tudo. Gosto e não gosto. Não gosto porque não é real, é atuado. E gosto porque estou atuando, encenando. Porque fazer parte de uma fantasia me é interessante. E em certa medida gosto porque mesmo sendo fantasia, eu acredito no que eu mesma falo, faço, ajo. É contraditório e complexo isso de eu perceber que preciso cometer atrocidades – ou ainda, de ser uma – para que gostem de mim.

Queria muito saber onde e como isso tudo começou. Mas não vou me dar ao trabalho de desvendar isso. Quero partir de onde estou.

E você não sabe o que é maldade, querido. E se depender de mim, nunca vai saber de verdade. Sabemos que sou mais fantasiosa e espirituosa que maldosa propriamente dito. E também sabemos que maldade é bem mais que isso. Caso contrário, já não mais nos reconheceríamos.

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