O ego queima, a alma não queima

Hoje uma amiga apareceu com alguns questionamentos e resolvi pensar um pouquinho sobre eles:

O que realmente procuramos em nossos relacionamentos interpessoais? Exclusividade. Nada pode ser pior do que se sentir igual para o outro. Principalmente se aquela pessoa é especial para nós e no nosso íntimo tratamos com exclusividades e diferenças. A busca é pela troca. Receber um carinho, um afeto… Se sentir especial e depois perceber que aquilo é senso comum, que o outro faz com todo mundo, sem distinção. O problema não é ser amoroso com todo mundo. O problema é aprender a fazer isso e usar isso apenas para ter muita gente transitando ao seu redor.

Sempre me senti errada (e já me disseram que eu era, sim) por não conseguir entender nenhum relacionamento dessa forma. Hoje entendo que não sou errada nisso, pois não existe “forma correta” de se relacionar com ninguém, cada pessoa é diferente. Só que geralmente eu tenho tendência a fugir do que é convencional e penso diferente. Para mim, todo mundo pode ser igual e único ao mesmo tempo. Para mim, é um tanto quanto estranho existir uma hierarquia de pessoas que eu gosto muito mais e pessoas que gosto muito menos: se eu gosto da pessoa, eu gosto. E gosto de formas diferentes de cada uma delas. Não há como isso ser errado bem como também não é errado eu gostar simultaneamente de várias pessoas ao mesmo tempo e por vários anos – só pra quem é completamente neurótico.

Sobre a pessoa ser afetiva e isso se tornar senso comum ou ainda, isso ser deliberadamente usado para que muita gente transite ao redor, acho que aí já é uma questão de percebermos isso no outro e tomarmos a decisão de aceitarmos ou não. Tem menos a ver com a pessoa que faz isso e mais conosco mesmo. Pessoalmente, à princípio não vejo nada de errado nisso: gostar de muitas pessoas. Só passo a achar triste quando isso representa um escape para a pessoa, de algum modo – mas aí já é mais triste para a própria pessoa do que para mim. Pessoas precisam de pessoas e isso é fato. É difícil perceber quando se está sendo usado como muleta em alguma situação. Algumas pessoas levam ANOS até perceberem isso. Mas é importante considerar tudo e principalmente tentar observar a forma que você se sente – e não ficar julgando o outro o tempo todo. O outro é, enfim, outro: tem seu próprio currículo e seu próprio caminho. Ao mesmo tempo que existe o ego do outro, é sempre bom lembrarmos que também temos o nosso. E para mim, domar o meu ego já é desafio o suficiente nessa vida… Não tenho a mínima intenção de domar o de ninguém.

Sobre se sentir especial, aí está algo que devido a uma série de coisas que já me aconteceram, resisto cada vez mais em acreditar. Eu não me sinto especial em nenhum momento. Ninguém me faz sentir especial. Eu me sinto privilegiada pelo simples fato de certas pessoas estarem e permanecerem na minha vida e continuarem se relacionando comigo, trocando – elas não precisam fazer nada pra provar isso pra mim. Não é frieza, é porque isso, de querere esse tipo de coisa, simplesmente não funciona mais na minha vida, nem para mim. Empobrece qualquer relacionamento que eu tenha. E consigo entender perfeitamente que pessoas vêm e vão nas nossas vidas, tudo é mutável, efêmero e movediço. Geralmente quando alguém começa a me encher a bola demais eu mastigo bastante e por muito tempo, mas não engulo. E ao contrário do que sempre pensaram, ter esse tipo de disciplina íntima não me impede em nenhum momento de ter e de sentir afeto. Pelo contrário: é justamente por exercer essa disciplina é que demonstro, constantemente, o quanto sou capaz se sentir afeto. Parece rígido, mas prefiro assim. É o meu jeito.

Em nenhum momento eu duvido que essa minha amiga se importe de verdade com as pessoas que ela gosta. E que ela realmente tem pessoas que considera especiais para ela. Mas ainda acredito que tudo o que causa dor ou drama deve ser observado muito cuidadosamente e com muita cautela. Tudo atrapalha: o ego dos outros sim, mas o nosso principalmente. Prefiro encarar elogios e demais demonstrações de afeto como um chiclete, pois assim me magoo menos. Faço uma bolinha, estouro, cuspo fora e pego outro chiclete. É bom de mascar. É desnecessário engolir. Várias vezes fui acusada de “não me entregar o suficiente” por ser deste modo. Bem, que seja. Eu me entrego ao meu próprio modo e apenas lamento por quem seja incapaz de perceber (veja bem, eu sequer disse valorizar) isso.

Ter compaixão por quem “não nos entrega o que queremos” às vezes é bem merda sim, mas é um exercício diário e necessário. E exercer isso com as pessoas que mais gostamos é mais desafiador ainda. Na verdade acredito que para mim, uma das coisas mais difíceis de aprender e aceitar foram as limitações das pessoas que parecem gostar de mim… Mas ter aprendido isso só me fez perceber o quanto eu gosto delas e o quanto elas são importantes na minha vida.

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