O sagrado no dia a dia

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Acho que eu escrevi sobre isso no Be Here Now, em 1968, após de eu residir na Índia por muitos meses, jejuando e fazendo ioga, eu parecia um iogue, eu tinha barba comprida e colares e eu usava vestidos, pés decalços e eu tinha luz saindo dos meus olhos, luz saindo da minha testa, antes de eu decair e… Não era permitido que eu saísse do templo por quatro meses e aí eu tive que ir à Nova Delhi para aumentar o período do meu visto. E então eu fui para Nova Delhi, andando pelas ruas como se eu flutuasse, eu estava tão distanciado que quando eu parei em uma papelaria para comprar alguns envelopes eles não aceitavam meu dinheiro porque eu era muito sagrado e isso é bem sagrado na Índia, e então chegou a hora do almoço e eu fui a um restaurante vegetariano, o que é bastante adequado ao meu papel. E eu sentei numa cabine, porque eu tinha tanta luz e era tão extraordinário as pessoas ficavam me olhando eu era um estrangeiro também, as pessoas te olham atentamente, então eu pedi um Tali e comidas adequadas para iogues, e você come de um certo modo quando você é um iogue você come como se você não quisesse mas como se você se forçasse a comer… E eu estava indo bem, eles estavam bem impressionados, eu estava impressionado, estávamos todos impressionados, e veio a sobremesa e era algo com 2 biscoitos e creme e eles não eram comida de iogue, e eles sabiam disso e eu sabia disso. É o tipo de coisa que um iogue rejeitaria. Mas dentro de mim havia esse adolescente gordo judeu que sem dúvida queria esses biscoitos. Então… Então eu, em mágica, quando você faz mágica você faz as pessoas olharem para uma das mãos enquanto você faz algo com a outra… Então eu parecia “sagrado” nesta mão e eu movia a sobremesa com a outra e então eu… Eu fiz algo lá e lentamente coloquei os biscoitos na minha boca e então eu não perdi pontos com esse pessoal. E naquela noite eu peguei o ônibus e voltei pras montanhas, 8 horas de viagem no ônibus noturno e eu cheguei lá e eu trouxe algumas frutas para o meu guru e me ajoelhei e falei que havia conseguido meu visto e eu me ajoelhei e abaxei minha cabeça e ele me puxou pela minha nuca e ele olhou para mim e disse “você gostou dos biscoitos?”.

Então… Então um dia eu estava sentado na frente dele e eu comecei a perceber que ele realmente sabia o que se passava na minha mente. Eu aprendi isso devagar, porque ele sempre fazia isso. Então ele estava falando com algumas pessoas na minha frente, numa mesa e aí eu pensei “bem, se ele sabe disso… ele deve saber daquilo também! E se ele sabe daquilo ele também sabe de outra coisa..!” foi a mesma coisa de “tente não pensar em hipopótamo” sabe? E de repente todas as coisas que você não queria que ninguém soubesse, minha mente estava cheia dessas coisas, coisas que nem mesmo você quer reconhecer e eu fiquei todo vermelho e eu não conseguia encarar ninguém, quando eu finalmente olhei através dos meus dedos, ele estava olhando pra mim com tanto amor total. E naquele momento eu pensei “que graça não seria se eu pudesse ser esse tipo de pessoa que amasse os outros como eles são”. Porque o que aconteceu naquele momento foi que eu me toquei de algo… No qual eu comecei a me permitir ser, apenas me permitir ser, havia sempre aquele gancho ali comigo dizendo “ok, eu serei sagrado quando eu me livrar disso e disso”… E de repente é “eu sou quem eu sou e tudo bem”. E esse desejo disso acontecendo é que eu posso sentir isso começando a acontecer, eu posso sentir que eu posso começar a apreciar os outros seres ao invés de julgá-los.

O julgamento sempre advém do seu próprio sentido de separação.

E você sempre está julgando as pessoas em melhores, piores, mais altas, baixas, gordas, magras, mais ricas, alguma coisa, tudo parte do mesmo continuum, o tempo todo. Tudo vem da mente. A outra qualidade é a de apenas apreciar o requinte de todas essas formas de vida se manifestando e a lei desabrochando e a intenção do espírito de despertar para fora da separação para dentro da totalidade e apenas apreciar a magnificência da formas. A dificuldade e a confusão para mim está no fato de que eu, por conta da forma que fui criado, eu sinto uma necessidade grande e absoluta de estar apaixonado por outra pessoa. E eu senti que quando eu estava apaixonado, quando eu sentia isso, eu imediatamente queria possuir o amado. É algo muito comum como vocês podem notar. Que você está no seu caminhar e de repente um estímulo se apresenta que libera, ele separa a armadura do seu coração e você passa pela experiência e diz “eu estou amando”. O que você então adiciona “Eu amo você“. Então você é o método, colocando de outro modo, você é o estímulo que libera em mim o mecanismo que me permite estar amando. Mas eu identifico o estado de amor com o meu método para se chegar lá. Então eu digo “eu amo você” e no minuto que eu digo isso, porque eu me sinto muito bem em estar assim, eu quero saber onde você estará terça à noite. E sexta à noite… E onde você vai estar pelo resto da minha vida. Porque você é a minha conexão no lugar em mim mesmo onde eu sou amor e eu não posso chegar lá sem você.

E eu me sinto fechado se eu não possuo esse ser por quem eu possa amar.

Mas agora imagine que no curso das suas práticas espirituais, do seu despertar, da sua evolução natural do despertar, a mente começa a aquietar-se, e como a mente aquieta-se os véus tornam-se um pouco mais translúcidos, um pouco mais transparentes e você começa a se agitar para dentro e para fora do seu coração mais e mais, ele não chega a ser cortado de você. E você olha para alguém e você sente que está amando essa pessoa. E então o que você, os velhos hábitos dizem, “eu estou sentindo este sentimento, então eu devo possuir…” e então você diz “você gostaria de morar comigo?”. E aí você vai lá constróem um ninho juntos, buscam galhos e folhas e uvas… E cortinas, e aí criam um belo ninho e ficam lá, aconchegantes e juntos. E então depois de um tempo você diz, “eu preciso ir até o mercado comprar iogurte e cerveja”. E você está no caixa e aí você olha nos olhos da pessoa que está no caixa e aí acontece de novo. Agora… Temos uma sociedade que tem certos códigos morais acerca disso. Você pode considerar um menáge a trois, mas o que você faz nesse ponto? Você nega o sentimento? Você coleciona mais um? Se você deixar esta daqui e quando você voltar para o ninho não tiver ninguém você ficará sem as duas. E o que você vai fazer de hoje em diante, você nunca mais vai olhar pra nenhuma outra pessoa? O que acontece se acontecer de novo? Você vai criar uma comunidade?

E eu percebi isso porque eu comecei a fazer isso. E aí eu percebi que eu tenho que me livrar desses velhos hábitos de colecionar o amado. Eu tinha que ser capaz de apreciar o amado, sem querer colecioná-lo porque eu percebi que eu não ia ficar sem amantes. Não falo de amantes no sentido físico, falo de amantes que compartilham o mesmo espaço com outro ser, o que está na verdade além do plano físico. E é muito estranho pra mim ainda andar na rua e olhar para alguém e quando nossos olhos se encontram, nesse momento, o estalo acontece, bem assim eles vão de “o que você quer?” e então quando você não quer nada, alguns deles estalam de novo e de repente lá você está, levou só um momento e lá vocês estão apaixonados juntos. E o que você vai fazer em relação a isso? “Quer tomar um café?”, “me passe seu número caso nos encontremos depois?” ou finalmente você apenas deixa ir embora e permita a si mesmo ver o amado mais e mais em todas as pessoas que você quiser olhar. Na medida que você cultiva esses planos de consciência, onde você vê o amado, quando você não se identifica mais tanto com seus desejos e necessidades ao ponto de só conseguir enxergar no outro as projeções dos seus desejos e necessidades, para que então você consiga enxergar o amado, seu comportamento muda automaticamente.

Por que como você age em relação a alguém que você ama?

(…)

[Sacred in the Everyday, by Baba Ram Dass]

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