Resignação

Às vezes eu acho que as pessoas que não se resignam aos seus destinos são as que mais sofrem, provavelmente. Sim, de uns tempos pra cá e tenho acreditado em destino. Pensei que fosse bobagem, por muito tempo. Mas tenho me convencido aos poucos de que não é. Tenho observado as pessoas e tentado entender seus modos de vida, o que fazem, porque fazem, como elas se formaram para serem quem são. Tenho aprendido a amar as vidas que eu observo, independente das pessoas. Ainda me impressiono com a capacidade dos seres humanos como um todo se adaptarem às situações mais adversas. E persistirem nos seus designios e desejos apesar de tudo, apesar de todas as coisas que lhes acontece, ou que lhes aconteceu. E tudo acontece “por amor”. É bem impressionante o quanto este tipo de força consegue impelir as pessoas aos feitos mais incríveis e desastrosos. E o quanto de sofrimento e aprendizado essa mesma força é capaz de gerar.

Uma mãe que descobre que não pode ter filhos por conta de uma doença nos ovários, vai lá e adota uma criança. Por amor. Geralmente essas coisas, esses desvios, são feitos pelo que as pessoas acreditam ser amor. A vida diz: você não pode ter filhos. A pessoa simplesmente se recusa a ouvir isso, passa por cima do que for possível e insiste em dar amor de qualquer jeito, como pode, como é capaz. E cria uma série de expectativas em cima disso, em cima deste amor. Me impressiona. O sofrimento, cedo ou tarde, advém disso. É sempre uma questão de tempo. Do mesmo modo que às vezes o currículo de uma pessoa não envolve ter nenhum tipo de relacionamento e ela insiste em não ficar só, insiste em fazer todos os relacionamentos em que se envolve “darem certo”. O currículo dela é, obviamente: fique só, você tem algo a aprender por aqui e isso não envolve outra pessoa. Mas a pessoa insiste em ignorar todos os possíveis sinais que possam aparecer sobre isso e persiste: sempre por amor, às vezes por paixão.

E o sofrimento é sempre inevitável. Reconhecer isso, que as limitações existem e que, nessa vida, eu “nunca vou poder ter o que eu quero” (por conta de um motivo maior, sim, sempre há um motivo e um mistério maior) é uma dor bastante profunda – mas é uma dor que ensina. Caso se decida ignorar o padrão que se apresenta, as dores são ainda mais infinitas e em cada vida é um sofrimento diferente. As pessoas geralmente lutam, tentam e se esforçam para serem felizes. Às vezes tenho a impressão de que o que falta, na verdade, é um pouco de resignação. É um “querer menos” as coisas. É uma desaceleração e uma observação mais certeira do que se apresenta. É deixar o egodrama um pouco de lado, enxergar os padrões e tentar viver com plenitude – sem muletas, sem tantas necessidades. É acreditar que tudo pode ser estável ao seu próprio modo apesar do seu currículo de vida que te é imposto, apesar de todas as separações que você já sofreu, de todos os lamentos, de tudo. É não forçar a barra das coisas. É entender que existem outras coisas além de tudo o que você quer. É viver um pouco menos intensamente para poder deixar a intensidade para o momento em que lhe é de direito.

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: