Finados

I

– Eu sonhei com essas duas mortes, antes de elas acontecerem, em 2011. Eu já previa isso.

II

– Pelo que eu conheço, ele nunca foi muito de utilizar de meios burocráticos ou legais para se expressar.

– Dadas as circunstâncias, acho completamente justificável e natural.

III

– Sinceramente, eu não sei o que ele quer. Nunca soube. E agora, nunca mais vou saber.

IV

– Ele nunca gostou de mim. 

– Por que você diz isso?

– Porque é a verdade. Fui uma desculpa que se encaixou bem para justificar outras coisas necessárias. Basicamente, serei a culpada por dois rancores, pelo resto da vida. As neuroses ajudaram, sim. Mas eu tenho motivos fortes pra acreditar que jamais, em momento algum, houve afeto de verdade. Entendo que outras pessoas tolerem agressividade, mas decidi que não preciso disso. E o que tive foi o suficiente. A culpa, que me tentou ser incutida, inclusive foi verbalizada de forma consciente, com todas as letras e me desculpe mas não vou levar o fator “no calor do momento” em consideração. É tudo muito cômodo, para ele. Cômodo demais. Era muito confortável me colocar como bode expiatório para todas as desgraças que ocorreram com ele e eu apenas não aguentava mais isso.

– No fundo, acredito que ele saiba de quem é a culpa pelas coisas, mas não quer admitir isso para si mesmo. Culpar você seria equivalente ao culpar o vendedor da arma pelo assassinato. 

– Sim, na verdade existe uma porção de coisas que não são admitidas ali. Além disso, há o agravante de eu ser considerada culpada de forma consciente.

– No meu caso, o que aconteceu foi ciúmes. E você só tem ciúmes de alguém que é importante pra você. Quer dizer, ele tinha ciúmes do que você sentia por mim e isso só era possível porque você era importante para ele. 

– Acho ingenuidade acreditar nisso. Eu não era importante para ele. Ele jamais gostou de mim. 

– Não acredito que seja isso. Apenas acho que no final a insegurança venceu. O medo venceu. O ódio venceu.

– Basicamente, há três anos tudo o que eu queria era que finalmente acabasse. O único motivo que ele tinha para me manter por perto durante esse tempo, era me maltratar e me fazer sentir mal o tempo todo sobre mim mesma e em relação à tudo o que aconteceu. Falo isso com toda a propriedade do mundo: ele jamais gostou de mim. Ele gosta das pessoas que diz que gosta. Eu só fui alguém que atrapalhou a vida dele, imensamente, em todos os sentidos. 

– Mas toda a história da psicologia consiste em tentar entender como é possível amar e odiar a mesma pessoa.

– Ok. Posso escolher no que quero acreditar? Acredito que ele jamais gostou de mim. Acredito ainda mais, que se assassinato fosse permitido, ele me mataria sem remorso algum. 

– Isso poderia acontecer.

– Eu nunca quis o desfecho que teve. Mas realmente eu não tive escolha ou aquilo jamais teria fim. Eu não tinha opção. Cheguei a questioná-lo uma vez: “escuta: quando é que você vai parar de me culpar por coisas que ocorreram há cinco anos atrás? veja: eu te perdoei pelo que ocorreu há bem menos tempo”. As respostas eram sempre em tom de profundo desprezo e evasivas: “talvez”, “quem sabe”, “algum dia”, “se você merecer”. Ou seja: eu jamais seria perdoada e ele continuaria usando N artifícios ao longo da vida para justificar seus abusos comigo.

V

– À propósito, ele também se vingou de mim, ficando com uma amiga minha inclusive. E foi ridículo, porque a intenção foi óbvia. A diferença foi que a menina com quem ele ficou não significava absolutamente nada pra mim. Ele escolheu mal.

– Não entendo como alguém pode fazer análise por anos e ainda ser assim.

– Eu acredito que a análise que ele faz é fraca e preguiçosa, de ambos os lados. O analista não deve sequer confrontá-lo, apenas reforçar o pensamento dele que já é muito próprio. Ao final, já não havia mais diálogo algum e eu era automaticamente culpada por todas as coisas que davam errado ou que eram ruins. Se eu ouvisse gritos ou fosse fisicamente ameaçada, ele era totalmente isento de responsabilidade pois tudo aquilo eu tinha “feito por merecer”.

– Esse é o mecanismo de enfrentamento mais comum das pessoas abusivas. “Por que você está me obrigando a fazer isso com você?”.

– Pra mim, eu nunca fiz nada de errado. Meus sentimentos e as coisas que vivi jamais foram errados. Não fiz nada do que fiz por motivos escusos. Fui rejeitada e desprezada por anos e me senti confortável para viver a minha vida, só isso. Mas nada, nunca, vai tirar da cabeça dele que desenvolvi um plano maquiavélico de vingança e que agi deliberadamente com o exato objetivo de magoá-lo. Para ele, pensar que foi assim é mais crível do que simplesmente aceitar que as coisas aconteceram. Nunca consegui me sentir efetivamente culpada por nada do que aconteceu. Ele tentou fazer com que eu me sentisse até o ano passado. Sem sucesso. Ou talvez com sucesso, né? Agora que ele conseguiu afastar o mal supremo que eu represento na vida dele, etc.

– Você sabe que eu perguntei se havia algum problema, não? E a resposta, com todas as palavras foi: não, não tem problema. 

– Curioso. Sempre me foi dito que não houve resposta definitiva. Sempre me foi proposto que havia um impasse ali.

– A única ressalva que me foi feita foi em relação a demonstrações públicas de afeto, mas sempre fui cuidadoso e era isso.

– E eu fui, ao longo dos anos, repetidamente questionada acerca da ausência das demonstrações públicas de afeto.

VI

– Melanie Klein dizia que todo o drama da humanidade nasce do fato das pessoas não conseguirem conciliar o fato de que o mesmo objeto que dá prazer também causa dor. À princípio os bebês acham que a mãe que alimenta e a mãe que não-está-lá-para-alimentar são duas pessoas diferentes, tem uma mãe que sacia e um outro ser bizarro que causa fome. Depois eles se tocam que na verdade é mesma pessoa que ou está presente ou está ausente e lidar com essa fusão do objeto amado com o objeto odiado não é simples. O mecanismo de defesa mais primário é regredir para o estado anterior e fingir que não, que uma pessoa não pode ter um lado bom e um lado ruim, ou ela é 100% boa ou 100% ruim. O nome técnico pra isso é “splitting”. Muita gente supera isso e consegue conciliar os dois lados da mesma pessoa. Mas aí também tem a questão da paranóia de que você vai destruir o objeto amado, pois não consegue conter seus impulsos destrutivos e também tem a questão da autoconfiança, onde a pessoa precisa entender que algumas coisas são reversíveis, que ela não será abandonada. De qualquer forma, essas relações dos bebês com suas mães acabam formando um template para todas as relações futuras. No caso dele, o splitting é constante: basta cometer meio vacilo e a pessoa vira o ser mais escroto do universo.

– Várias coisas não são admitidas, também por conta de orgulho. Ele sente saudades, mas não admite. E toda vez que sente saudades, faz com que o ódio e a repulsa fiquem evidentes para se convencer do contrário. O rancor é maior do que qualquer coisa. E praticamente tudo pra ele é imperdoável.

– Sim, esse é outro ponto também. Ele não acredita em reconciliação. As pessoas se juntam de novo por jogos de poder. Tudo tem que ser forçado, tem que ser na marra. Você tem que vencer e submeter o outro pra ficar com você.

– Sim, exatamente assim. Acho isso tudo muito difícil, cansativo. Sempre observei que ele precisava de coisas que eu jamais poderia oferecer. Não me ressentia com isso, apenas dizia que ele deveria conhecer outras pessoas. Aí ele ficava puto e falava que isso jamais aconteceria e que ele jamais teria outro relacionamento simbiótico, etc. E hoje em dia o que vemos não é bem isso..

VII

– Tenho ouvido falar que ele tem se isolado e confesso que isso me preocupa às vezes.

– Por que?

– Ele queima pontes, perde amigos, as pessoas perdem a paciência com ele e ele fica lá, xingando o mundo imerso numa piscina de rancor.

– Ele gosta de imersão. Quero acreditar, sinceramente, que ele está imerso com o novo passatempo dele. E de lá não irá sair tão cedo até algo errado acontecer ou até ele enjoar ou achar alguém que substitua com mais propriedade, que dê mais vantagem à ele e à causa dele. Ademais, ele é bem grandinho não? E essa é uma escolha dele, parece.

VIII

– Era sempre assim: quando eu falava que gostava de outra coisa, ele queria me matar. Quando eu falava que gostava de outras pessoas, ele queria se matar.

– Ele obviamente tinha medo de te perder.

– Medo de me perder o caralho. Ele queria ser o único. The one and only. Queria alguém que o idolatrasse a ponto da abnegação completa e irrestrita. E o achasse sempre melhor que todo mundo, mais foda que todo mundo. E provavelmente é isso o que ocorre agora. Ele estava cagando pra mim, na real. Sempre esteve.

IX

– Portanto, eu ainda acho que ele gostava de você, mas que ele não sabia lidar com você. Ele precisa de alguém submissa e o fato de você não ser submissa era desconcertante.

– Ele jamais gostou de mim. Tudo não passou de um grande mise-èn-scene pra ele justificar um bando de coisas pra si mesmo.

– Acho que agora é você quem não está sabendo lidar com os estados contraditórios nos outros.

– Pode ser.

– Ele gosta das pessoas, mas não sabe “como” gostar. Deixa as inseguranças dominarem a relação e se você não se impõe, ele passa por cima de você, sem consciência alguma disso.

– Se você se impõe, ele se impõe mais ainda. Been there, done that. 

– O único jeito que você tinha de se impôr era terminar. Sumir. Ir embora. Você não pode tentar “bater de frente” pois isso é dar a ele o campo de batalha que ele escolheu. Ele quer raiva, agressão e loucura. Se você entrar nessa onda, você entra perdendo. 

– Exato. E foi exatamente isso que fiz. Enfim, lamento ter terminado como terminou. Mas eu, de fato, não tinha alternativa. Tive medo, pela minha integridade física mesmo.

– E aposto que geral soltou confete quando ficou sabendo.

– Sei lá, àquela altura do campeonato a última coisa que me importava era a reação das pessoas. O que me importava era a minha relação com ele, que sempre foi horrível e estava acabando comigo.

– De qualquer modo, uma pessoa com o grau de narcisismo dele é incapaz de amar outra pessoa.

– Basicamente, este é o meu ponto. Logo, ele jamais gostou de mim. E hoje eu sei disso.

– Mas ele também jamais gostou de alguém. 

– Pode ser, enfim, só posso falar pela minha experiência.

– Mas o que eu queria dizer é que você foi importante pra ele, caso contrário nada disso teria acontecido.

– Fui apenas um meio para que ele pudesse atingir os objetivos dele: de superar certas situações, de se sentir bem consigo mesmo e só. Apenas isso. E os objetivos dele jamais me incluiram ou ao meu bem.

– Ele queria que você gostasse dele.

– Eu não sei o que ele queria. Sinceramente. Não sei o que ele quer.

– Não que isso seja super nobre, queria por motivos egoístas. Mas queria. 

– Ele se emputecia quando eu falava com carinho de pessoas que eram importantes pra mim. Dizia que eu não levava em consideração o lado podre das pessoas, que eu as idealizava, que eu tinha 200 amantes, que eu era a maior puta da Babilônia, etc. Ele nunca gostou de mim – ele gostava do que eu representava. Do mal que eu representava à ele. Sempre desmereceu todos os meus relacionamentos para dizer que o relacionamento “mais verdadeiro” ou “melhor” que eu tinha era com ele, e o resto era tudo ilusão. E eu sempre achei que ele não precisava disso para estar comigo. Mas pra ele, o simples fato de eu estar com ele, jamais bastou. Eu tinha que estar com ele, venerá-lo eternamente, me redimir por todos os meus pecados diariamente, cometer auto-flagelação em público todas as vezes, abandonar todos os meus sonhos, jogar minha vida no lixo, matar meus pais… Era muita coisa que eu tinha que fazer, sabe? Meio que não dava.

– E no final ele não ia ficar satisfeito.

– Lógico que não! Enfim… Eu fui útil pra muita coisa, na verdade. Mas foi isso. Não caio na ilusão de achar que ele gostou de mim, nem nada do tipo. Porque sei que não foi isso, em absoluto.

– Você ainda acha que um sentimento contradiz o outro e eu aqui tentando te explicar que alguém pode gostar e ter raiva da mesma pessoa…

– Sim, eu entendi o que você explicou. Só me recuso a acreditar nisso.

–  Acredito que de fato acho que ele não sabe amar ninguém, mas que isso não é nada específico ao seu caso.

– Sim, eu também entendo isso. E lamento por isso. O que me fez desistir finalmente jamais foram as situações em si, as mentiras, a personalidade, as brigas, o caráter. O que me fez desistir foi a total ausência de afeto. Eu sou capaz de tolerar qualquer coisa, menos desamor.

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