FKA Twigs, Two Weeks

Um cenário etéreo desde o princípio, uma sensação de sonho, uma ambiguidade que não permite saber ao certo se é noite ou manhã recém acontecida, até notarmos a revoada de pássaros, a agregação quase invisível de insetos. Há éter, incenso no ambiente onde o que acreditamos ser uma sacerdotisa nos aguarda. Há uma brisa leve, quase tudo reluz. Em tudo há uma postura de pretensão de eternidade, o queixo alto, a expressão impassível, cabeça erguida, movimentos lentos. As partículas de ouro da atmosfera podem ser na verdade estrelas longínquas, as quais, por hora, não podemos mais encarar. Ela sabe que sofremos. E promete saciar uma sede.

“Você diz que é solitário. Eu te digo que você deveria pensar nisso”.

Sabemos que há todo um universo que se esconde além do que é mostrado, mas por algum motivo não queremos nos apressar para decifrá-lo. Apenas queremos observar para vermos até onde ele se desdobra. Ela fala como se dirigisse a um deus igual, mas omite seu nome, omite, em certa medida, seu amor. Omite inclusive sua própria onipotência. E tudo o que é omitido fica em evidência, pois seu rosto se ilumina quando o que não é dito é insinuado. Se lembra desse deus, com quem se comunica, através de gestos: o indicador para o alto, o olhar para os céus, enxergando águias estridentes. Ela entende que há, que existe sim, algo maior que si.

Algo que talvez seja incapaz de mencionar. Incapaz de saber lidar.
Uma – ainda – humana que faz promessas, que possivelmente não cumprirá. E que sente paixões.

“Eu te colocaria em primeiro lugar. Eu posso te foder melhor que ela.”

As ambiguidades são sempre precisas. “Você diz que me quer. Eu te digo que você consegue viver sem isso. A não ser que…” O jogo está estabelecido. Em um primeiro momento, um séquito de iguais. “Me dê duas semanas e você não irá reconhecê-la”. Para esta sacerdotisa, ser uma divindade é efetivamente uma questão de distância e perspectiva. Ela oferece as mãos banhadas em ouro. Oferece e possui um séquito de adoradoras dependentes. Enquanto divindade, ela sacia a sede, jorra ouro pelas mãos, alimentando e criando um vínculo de dependência. “Eu sou a cura para toda a merda pela qual você está passando”.

Nesse momento é possível ver um panorama geral de todo o reinado aparente.

“Você sabe que é meu”.

Nesse momento, ela reafirma seu poder, enquanto divindade, ao seu séquito. Enterra, assim, em certa medida e mesmo que momentaneamente, o seu deus – o inominável – para assim, tornar-se a sua própria.

“Eu te colocaria em primeiro lugar, apenas feche seus olhos e sonhe com isso”.

Duas temperanças.

“Eu vou saciar sua sede, apenas persiga isso e pare de duvidar”.

Quatro temperanças.

A princípio, parece uma divindade que vai ao encontro do que se propõe, que realiza milagres. Mas o conteúdo do que é dito, trata-se exatamente o oposto disso. Não existem milagres, não existe sequer uma entrega efetiva, mas uma entrega superficial, transitória, como a temperança. Feche seus olhos e sonhe com isso. Apenas persiga isso e pare de duvidar. Trata-se de uma questão de fé. Nela. Em seu poder. Nos seus desígnios, desejos e caprichos. “Eros é diabólico: ele constantemente retém o que promete, e constantemente promete o que pretende reter“. Por fim, é mantida uma deusa silenciosa e submersa. Uma divindade inconsciente, mas à espreita. Longe do reinado, das temperanças, das promessas – mas que é parte e influi diretamente nele, como parte da lei.

[O que está em cima é como o que está embaixo. O que está embaixo é como o que está em cima.]

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