Sala de espera

Ela entra na sala de espera e você a espera. Tudo é muito rápido, vocês se amam à exaustão, uma comida que é engolida sem respirar, sem calma. Não se digerem, mas se degustam. Existe uma fúria, latente, ali, ela não sabe o que é, você sabe mas queria não saber. Mesmo nos momentos lentos dentro de todo o momento tudo ainda é fugidio, fugáz. Ela se esparrama, como água na superfície mais lisa possível. Há o que precisa ser feito, há o que não deve ter fim. Existem vocês, um milagre, uma bênção. Uma maldição, na verdade. O que você não quer que tenha fim. Vocês. Você sai da sala de espera. Respira um ar novo, uma outra realidade. Anda por aquelas ruas com as quais, há muito tempo, já sonhava andar. Entende aquele clima como jamais precisou se esforçar, para entendê-lo, para qualquer coisa. É tudo seu, você tem tudo (mas sabe que não). A sala de espera vazia. A ausência de vocês. Uma outra vida. Os objetos largados displicentemente falam por si próprios, contam, ininterruptamente as poucas histórias já ocorridas, os momentos históricos, memoráveis, as mãos que já sufocaram, as vozes que sussurram, calam e lacrimejam. Rabiscos, remédios, livros, dispositivos, ferramentas, palavras, incumbências, ordens, proteções. Nada se esconde, as coisas estão dispostas, os pensamentos, disponíveis. Há a ausência de um. Ela se deita e te olha, dormente. Ela, com olhos bem abertos. Você acorda e ela te vela. Você sorri. Você a busca. E encontra. Há uma sala, há uma espera e você está sozinho. Você a vê, nua. Os olhos abertos te velam, nus. Enquanto você dormia. Você sabe. E cronometra. Ninguém precisa saber. Isso diz respeito apenas a mim e somente a mim, pensa. Você lê algumas palavras, rapidamente. Sorve o quanto de informação precisa para se manter saciado. Tenta uma lentidão e fracassa. Você não pode. Hoje, é você quem vela. Sabe os caminhos, os atalhos, de cor, sem cor, para poder apagar com melhor propriedade as pistas depois, desta vez, prevenido. Aquela tela, você a enxerga, em preto e branco. O que já foi, o que é e continua sendo. Às vezes você acha uma pena existir tão pouco tempo para julgamentos. Transparecer qualquer coisa é proibitivo. Ocorrem pequenas implosões, pequenos desgostos dentro de você, desgostos que alimentam, que nutrem. Nutrem algo. O desprezo ao qual você se reserva, porque precisa para se lembrar de algo. O tempo é escasso.  A sala se ocupa novamente, não há mais espaço para si e agora há espaço para tudo, para a vida, para ela. E tudo se repete. Os objetos se colorem novamente. A tela se fecha, o livro se fecha e o amargor vira mel, nos lábios do presente que se faz presente. Do presente com significados, íntimos, explícitos, pessoais, públicos. Vivos.

A sala não espera mais.

Ela não permite, mais, que haja a espera.

Vocês se fundem novamente.

E então, esquecem.

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: