176/2014

Às vezes eu queria que algo realmente irreversível me acontecesse para ver qual seria a minha reação. Não sei se algo de bom. Provavelmente não. Tenho dificuldade em reconhecer quando coisas boas me acontecem. Mas algo desafiador verdadeiramente, pra não dizer ruim. Queria precisar lidar com uma limitação mais verdadeira. A impressão que tenho é que boa parte das coisas que me acontecem são forjadas. Tudo tem essa opacidade. E são poucas as coisas que verdadeiramente me emocionam. Me tiram o chão. Queria ter essa ausência mais vezes. Às vezes parece que não sinto nada. Nem de bom, nem de ruim. Que me distanciei de tudo a este ponto. É quase como se eu já estivesse morta e só faltasse um tipo adequado de enterro. Pessoas morrem, artistas conhecidos, queridos, escritores, músicos. Nada sinto. Para não dizer que não sinto nada, sinto uma tristeza breve, mas em seguida me distraio com alguma outra coisa. Não trato da perda. Deste tipo de perda. Isso é tão ruim assim? Não sei. Sou insensível? Muito possivelmente. Não gosto de nada, verdadeiramente? Já ouvi isso, várias vezes. Também não digo pras pessoas que as amo. Digo para as que querem ouvir isso e sabem ouvir isso. Digo para quem dizer isso é fácil. Não digo que amo quando é difícil dizer. Se é difícil, nada falo. Sinto que não me envolvo mais. Sinto, mais que isso, que na verdade eu não sei me envolver. Não é uma questão de querer ou não. É mais profundo que isso. É uma questão de inaptidão, pura e simples. De me enxergar. De enxergar o outro. Não me permito mais nada, não me entrego. Não sei nem ao menos se essas coisas me fazem falta. Acho que não. Acho que a vida, a minha vida, é assim mesmo. E será assim até eu desistir dela, eventualmente. E esse dia vai chegar. Também fico pensando no dia em que vou me render novamente. Espero que esse dia nunca chegue, secretamente. Eu morro de medo que esse dia chegue, de novo. Acho que prefiro morrer. Mas eu sei que vou me render, cedo ou tarde. A algum tipo de amor (como se isso existisse). Ou quando alguém próximo, com quem considero que tive vínculo afetivo, falecer. Tenho pensado muito nessas coisas. Mais do que deveria. Acredito que se alguém próximo falecesse provavelmente eu saberia lidar melhor com o caminho de ir até o inferno e retornar. Não sei, estou apenas supondo. Quanto à paixão ou até mesmo amor, acho improvável. Sei que é bobo eu dizer que “não quero mais que aconteça”, mesmo porque isso não é o tipo de coisa que controlamos, exatamente. Acho que a forma que eu vivencio isso, essas coisas, é difusa demais pra ser considerada real. Isso é algo que vou sempre observar, mas viver, do modo que a maioria das pessoas acredita que deve ser vivido, acho que não. Não existe essa disposição por aqui. Essa persistência. Essa vontade de poder. Agora, sei que nada sinto. Não consigo sequer me imaginar sentindo qualquer coisa remotamente parecida novamente. Não visualizo isso. Só sei que não quero. Que não tenho absolutamente nada a oferecer.

 

E que não há nada aqui.

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