Aquela

“Nunca me elogie insultando outras mulheres. Não é elogio, é uma competição na qual nenhuma de nós decidiu participar”.

“Você não é como as outras garotas”.

“Você é especial”.

A primeira frase foi dita por uma feminista, claro. As outras duas, já ouvi algumas vezes e pertencem ao senso comum. Este não é apenas um papo: este é o papo. A conversa das pessoas que se apaixonam, mesmo que brevemente. “Ela é especial”. A conversa de alguém que se convence enamorado. Hoje entendo a paixão como nociva. Certamente ela é o combustível pelo qual muita gente sobrevive, mas para mim não funciona assim. Observando e pensando agora, nunca funcionou. Eu era severamente questionada há alguns anos: “mas vocês nunca andavam de mãos dadas, nem pareciam que estavam tendo nada… é assim mesmo?”. Sim, era. E o carinho era (foi, é) imenso. Apenas nunca sentimos que precisávamos provar isso para quem quer que fosse. Era algo mais nosso, que do mundo. O convívio, apesar de tudo, permanece.

Ouço: “a maioria, na verdade, nem me parece chegar a seus pés”. Não é um disparate? Um exagero? O quanto de irrealidade não cabe nessa frase? Pode nem ser para desmerecer ninguém, mas para mim essa frase não significa absolutamente nada. Não passa de uma sequencia de palavras. Falando assim parece desprezo, rancor, amargura, desamor. Mas não é. Não é mesmo. Eu só não preciso que essa frase seja dita pra mim. Não preciso acreditar nela para entender que o outro gosta de mim. Essa frase não  me prova absolutamente nada. Quanto às outras são apenas isso para mim: outras. Com tantos atributos e defeitos quanto eu. São apenas pessoas que não são eu: não possuem o meu conjunto de atributos, não possuem o meu conjunto de defeitos (que julgo, rígida, serem muitíssimos).

“Mas se eu tiver que achar todas igualmente especiais, então ninguém é de fato especial. Há pessoas escrotas e você não é escrota. Há gente vazia e você não é vazia. Por que eu deveria achar você exatamente igual a outras pessoas?”. Igual não, diferente apenas. Não melhor, não pior: outra. Eu sou a outra. Eu sou aquela. A que você vê. A que os outros vêem. A que é vista, também. Estou longe, bem longe, de ser fêmea alfa. De ser a “mulher prêmio” para ser exibida em sociedade. Aqui ou em qualquer outro lugar ou contexto. E acho isso ótimo, acho bom ser underrated (para não dizer dissimuladamente desprezada). Isso me mantém estimulada. Fato é que acontece muito sim o tal do “você é especial” por motivos escusos. Assim como o “você foi importante pra mim”. Sabemos que se tratam de mentiras deslavadas, em ambos os casos.

“Róla até ‘eu te amo’ por motivos torpes. Mas daí a reprovar o ‘eu te amo’ é um longo caminho”. Sim, ele é longo mas deve e pode ser tomado. E é sim, eventualmente, passível de reprovação. Não apenas reprovado como negado. E aqui não é a amargura em pessoa falando. Acredito, sinceramente, que persistir em uma situação que te machuca, sucessivamente, “por amor” depende diretamente do quanto se está disposto a bancar isso e por quanto tempo. Não sei se, no momento, é o que desejo pra mim, sinceramente. Não estou disposta. As pessoas são diferentes, cada tem seus limites. Em uma situação é possível se prolongar o que for, em outras, mesmo com todos os ventos a favor, é simplesmente insustentável. Mas cada caso é um caso e é preciso saber separar o que é desamor do que não é. Distinguir as coisas.

Isso de eu não me achar especial é coisa minha também. Eu não acho nada, são as pessoas que me acham (ou não, geralmente). E aí as coisas acabam acontecendo. Gosto disso. Prefiro assim. Gosto de quando as coisas se permitem ser sustentáveis, ter continuidade. Gosto de quando as coisas não precisam acabar, de quando elas apenas acontecem e se ajustam na nossa vida, vão se modelando, aos poucos, ao que acontece. De quando apenas podemos nos permitir observar e entender o que acontece. Se pudermos, demos oi. Se não, então não. O importante é que sempre exista a possibilidade… E é exatamente isso – esse conjunto de possibilidades –  que faz com que as coisas se movimentem, com que a vida se movimente, com que o relacionamento, qualquer que seja, possa ser minimamente espontâneo, flexível.

“Eu sou melhor que a maioria dos homens que você conhece?”. Eu não sei. Não gosto de comparações, cada pessoa é única, cada experiência única também. Eu já preciso quantificar e qualificar muitas coisas na minha vida, mas relacionamentos eu juro que não gostaria que fosse uma dessas coisas. É complexo demais pra ser quantificável. O simples fato de você estar na minha vida e pertencer ao meu convívio por si só já diz muito sobre o que eu acho de você. Eu não preciso provar, nem dizer nada. O fato de existir um convívio, uma troca, não importando o tamanho dos hiatos e da frequencia, já diz muito. É difícil conhecer alguém em sua totalidade. É mais difícil ainda eu ficar tentando me convencer sobre o melhor de todos e o pior de todos. O melhor que eu conheci certamente tem um pior lado que por algum motivo não cheguei a conhecer.

O pior, deve ter qualidades que estejam funcionando muito bem para outras pessoas e que jamais funcionariam comigo. Reclamam de que, comigo, não se sentem valorizados. É uma pena, então talvez algo não esteja bom mesmo e deva ser observado. Me atento ao que ocorre agora, observo o convívio. E o fato de eu não ficar demonstrando o tempo todo que estou apaixonada ou que sou louca pela pessoa de quem gosto não é desamor. É que eu realmente não gosto e não sei lidar com a afetação da coisa toda. Quem gosta (ou algum dia já gostou de mim, de verdade) não vai me dizer nada, nunca. Jamais vai confessar. Paixão não é convívio, é delírio, doença. Priorizo um bom convívio em detrimento de qualquer paixão ou afetação. De preferência o convívio irresponsável, porque ser irresponsável é mais divertido do que ser autônomo.

Mas esta sou eu. E eu mantenho meus relacionamentos assim porque é o que tem funcionado, ao longo dos anos. Talvez em algum momento deixe de funcionar, eu não sei. E muito provavemente eu devo estar errada nisso tudo. Mas enfim, a vida vai se encarregar de me ensinar isso em algum momento. Ou não.

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