Sua

Certa vez sonhei com uma onda que quebrava e se arrastava infinitamente na areia, sem jamais retornar ao mar. Não havia repuxo, a água apenas se esparramava contínua em uma direção que eu não sabia qual era (em todas as direções possíveis e imagináveis, parece). Penso que a ausência de paixão me invade como essa onda, que jamais termina de quebrar. Ela me percorre, inteira, todo o meu corpo e me extrapola, vai além de mim. Eu transbordo. E esse sentimento parece que jamais terá fim. Me tornei uma eterna testemunha, dessa vez, consciente. Observo o que há de belo, o que há de amável e não existe mais reação imediata. Não existe mais a necessidade da reação imediata. Não há desespero. Não sinto que preciso fazer algo para ser digna de qualquer coisa que seja. Eu já sou digna: amo, amo, amo. Amo porque olho e deixo de olhar e a minha vida segue, em fluxo. Sou isso, as coisas são isso, sou esse fluxo. Amo porque me lembro do que vi. Amo e vou. Me lembro do que senti. Faço tudo o que preciso fazer, sem precisar sair dos meus trilhos. Amo porque olho novamente e permaneço inabalável. Me expando, me permito ser generosa, espontaneamente. Nada de troca de favores, nada de vias de mão dupla. Tudo simplesmente é. Não preciso dar voltas, não preciso alcançar, não preciso me fazer alcançada. Isso, esse amor, isso o que vem, que não tem nome, também é fluxo. E me acompanha, por um dia, por uma semana, anos, meses. Fica. E desaparece, é etéreo. Também vem, às vezes, também é forte, tem significado, também persiste e performa ações, em mim, dentro de mim. Amo, profundamente. Lentamente. Uma vez por vez, uma vez cada vez, todas as vezes. Calmamente. Hoje esbocei um sorriso e por dentro, nesse dia frio, me aqueci inteira. Ele me aqueceu a alma. Lembrei-me daquela vez que olhamos um para o outro e dissemos “oi”, e nos enxergamos, apesar de todas as camadas, apesar de todos os canais, de todas as situações de vida pelas quais já passamos, de todas as coisas que carregam os nossos egos, de todos os arquétipos que dizem que somos, apesar de tudo. Éramos apenas nós, observando um ao outro. “Oi”. Seus lábios encostaram nos meus como cumprimento, um dos mais afetuosos que já recebi. Sua testa encostou na minha e sorrimos com um sorriso só.  “Isso existe”, penso, hoje. “Isso foi possível. E isso foi real. E isso é o suficiente”.

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