Alors..

“Acho que cheguei naquele estágio”. Pensei nisso embora não se trate de estágio algum. Fui ao mercado fazer compras e uma música do Strokes ficou na minha cabeça. The modern age. As músicas sempre se repetem na minha cabeça, minha cabeça é um tédio, mas ela funciona assim. Enfim. Não fiquei satisfeita em ter essa música na minha cabeça apenas e tive que cantá-la. Estava entre as cestas de gengibre, mandioquinha, beterraba e inhame. Escolhia beterrabas quando senti vontade de cantá-la. Murmurá-la, a bem da verdade. Acho que comecei sem perceber. Não consigo me lembrar se me empolguei ou não. Acho que não, nunca me empolgo muito com nada. Só sei que cantava e escolhia beterrabas, concentrada. Mas eu ainda sei quando alguém põe os olhos em mim e então eu levantei o olhar. Levantei meus olhos para uma outra pessoa na minha frente porém do outro lado da mesa de vegetais que me olhava, incrédula. Com uma expressão que misturava estranhamento, terror e um certo encantamento. Mas no fim das contas senti uma reprovação devastadora naquele olhar. Não apenas isso, imaginei por milésimos de segundos que eu poderia, inclusive, em dada época, ser morta por aquele olhar. “Dora estava cantando sozinha no mercado. Ela devia estar conversando com Satã”. E lá se vai o meu corpo, queimando na fogueira (das vaidades?). “Ela parece louca”. Sim, tem tudo isso. Teve tudo isso. Olhei para pessoa me olhando, mas não a enxerguei, na verdade. Ele se constrangeu e voltou a fazer qualquer outra coisa, seguiu sua vida. E eu pensei em ficar constrangida, mas não fiquei. Voltei a escolher beterrabas.

Alors, on chant…

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