Hope for punishment IV

As pessoas tem vários perfis e um dos meus é este. Não gosto, não me agrada, mas faz parte da minha natureza: sou apenas melhor quando sou assim. Nem tudo tem que me agradar na vida, nem a ninguém, acredito. Certas coisas não se escolhem. Sendo assim, assumo outra postura: uma postura dedicada, quase profissional. Burocrática. Faço o que precisa ser feito, não o que eu quero ou gosto de fazer. E isso, custei a entender, mas de modo algum é um defeito. Ser assim em determinadas situações me causa movimento, como se existisse uma espécie de força vital nas entrelinhas deste modo de ser.

Aprendi isso analisando a forma com que eventualmente tive de lidar com make up sex. Essa pode ser uma experiência incrível, sempre, para a maioria das pessoas. No entanto, nunca foi uma experiência boa pra mim. Não é que eu não goste de fazer isso. É pior do que isso: não gosto, nem desgosto. Faço, continuo magoada e as coisas simplesmente não se resolvem. Não resolvo nada com sexo porque não sei – e não quero aprender a – utilizar isso como moeda de troca pra nada. Faço porque quero, porque gosto, porque estou a fim da pessoa e estou com vontade. Será que isso me basta? Não vem ao caso, agora.

Curiosamente, quando tive que me engajar nesse tipo de prática, a outra parte envolvida achou tudo maravilhoso. Não senti o mesmo. Para mim, não havia paixão alguma ali: apenas eu sendo formal e burocrática. Fui uma profissional, fiz o que precisava ser feito. Não fiz nada por obrigação, é um pouco mais complexo que isso. Fiz por motivos bastante claros: 1. não me parece muito sábio contrariar um homem com quase três vezes o seu tamanho com raiva e uma ereção e 2. Puro medo de desamor pelo simples fato de dizer ‘eu não quero’. Não fui uma amadora, fui burocrata, objetiva, prática. Alrite, let’s get it over with.

A agressão não veio, mas me senti um lixo de qualquer forma embora a culpa fosse minha. E o desamor veio sim, de vários modos, várias vezes, repetidamente. Não duvido que muitas mulheres se sintam impotentes quando estão magoadas. Mas felizmente algumas podem emular praticamente qualquer coisa. É possível foder se sentindo completamente vazia por dentro, sem o mínimo de vontade, sem desejo, nem nada. Só é meio sem sentido, sem graça e totalmente sem significado algum. Ao mesmo tempo, é a maior prova de desprendimento e generosidade que alguém pode ter. E também, a maior prova de anulação.

(Anulação do quê? Anulação de quem?)

(…)

Estupro é algo possível. Agressão também. Desligar-se, disso tudo, também.

Quero compreender onde se encontra a gênese da permissão.

E da consensualidade.

(Baise-moi.)

(…)

meu coração é terra de ninguém. uma terra seca, infértil e estéril. aqui, só conseguem florescer ficções. falei a ele que gostaria de dormir de conchinha e ele me falou que o afeto era perverso. pedi para que parasse. pedi para que nem mesmo começasse. (você está me brutalizando). em relação a tudo ou quase tudo o que me aconteceu, observando todo o desamor que se apresenta para mim, percebo que fui voyeur de mim mesma. eu nunca realmente soube se qualquer coisa foi consensual. sempre quis que as coisas fossem claras e óbvias assim, para mim, mas elas nunca serão.

não tenho consciência da dimensão de tudo e nem por isso posso ser culpabilizada. eu sei que não é um sentimento agradável saber que estou de alguma forma envolvida. eu não me envolvo: eu permeio. aprendo, a duras penas, as coisas que gosto. viro uma testemunha ocular. um bode expiatório, muitas vezes. uma cúmplice hesitante, intocável. viro alguém que perturba, por algum tempo. que imprime momentos de hesitação. esqueço de datas importantes, não me interesso o suficiente. eu não sou boa. gosto pela metade. gosto mais de outras coisas. não me preocupo. deixo o outro com o que ele tem e sempre teve: uma incógnita.

para mim, ambiguidades sempre foram crimes. existe isso, sempre tive essa falha, essa cisão. hoje aprendo a brincar com elas. sempre me pareceu perverso, brincar com fragilidades. mas aos poucos as linhas se borram para mim. me mostraram que pode existir um padrão de consentimento implícito, inclusive. por mais subjetivo que isso fosse, me chocou de início. uma mentira. uma maldade. julguei de mil formas, mil incompreensões. com isso entendi como permiti que tantas coisas acontecessem com a minha própria fragilidade. sei que é muito melhor – mesmo que covarde – se aproveitar de alguém mais fragilizado ou mais frágil que você.

– a sensação de domínio é muito mais autêntica quando é em relação a algo mais suscetível que você –

– e a autenticidade se expande quanto mais implícito for o consentimento –

(me brutalize. eu não preciso saber disso.)

hoje eu vou estar bem. hoje eu vou aguentar. todas as mentiras, todas as ficções e eu nunca aguento. sempre me faço promessas e sempre falho. certas permissões nos são tolhidas. não há como controlar o afeto, por exemplo. podemos controlar a vontade – à força – mas nem sempre conseguimos. nunca é algo simples. this is hardcore. existem coisas tão bem escondidas que estão à mostra. basta observar. observo: o desejo de amor onde é fetiche. certas improbabilidades aqui e ali. tantas outras impossibilidades. a unicidade, total e completa, que brota a partir da mais pura separação. essas coisas existem. e são reais, embora aparentes ficções.

(seria esse o turning point no qual tenho pensado há meses? ainda me questiono. levarei essa questão como amuleto, por toda a vida.)

isso tem me obsedado. o afeto é algo pervertido não no sentido simplista e completamente espúrio o qual entendem isso. mas num sentido muito, muito mais profundo. é preciso não só saber explorar, mas também saber extrair a ternura, continuamente. e isso não é brincadeira, não é entretenimento ou passa-tempo. “o afeto é algo terrível” ele me disse. e ele realmente quis me dizer isso. tudo o que vai acontecer é bastante perverso. a total e completa ausência de objetividade. toda a lentidão, retenção total do tempo, das horas e aquela típica falta de propósito. a sensação de entrega, mútua, sensual (é uma sensação, está na nossa cabeça, não no mundo, por isso a angústia dos poetas, a loucura dos artistas, o excesso do excesso que não há para onde escorrer, não há para onde jorrar – eles fazem o que fazem para botar isso, que não existe, no mundo). e todas essas coisas são – podem ser – letais.

desaprendi várias coisas. não me orgulho disso. não me orgulho de nada do que me aconteceu.

a única coisa que eu quero é poder caber no teu abraço (por um momento).

saiba.

p.s.: no safewords allowed.

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