Ressignificações

Algumas ressignificações involuntárias tem acontecido esses dias. O que me faz acreditar que todas as ressignificações ocorrem apenas deste modo. Involuntárias, improvisadas, não planejadas. As coisas demoram pra mudar, e quando mudam, mudam repentinamente. Não sei o que ocorre. A memória é uma coisa curiosa. Sempre tive a tendência a acreditar que a memória é algo estático, o que foi foi, é imutável, é aquilo ali mesmo e não deixará de ser. Mas não funciona assim, embora uma parte de mim deseje que funcionasse. Mas a memória – a minha ao menos – é maleável. Ouso dizer que é até flexível. Eu romantizo tudo, até as coisas ruins.

Eu também desconsidero as coisas que estão por vir antes de acontecerem. Duas pessoas que aprecio muito (ao meu modo), me deixaram isso claro de ontem pra hoje. E foi totalmente não intencional. Não conversei com eles sobre esse assunto, nem nada. Na verdade as conversas nem mesmo se aproximaram disso. Nos dois casos, meros acasos. Em um deles, me bastou um endereço. Reconheci aquela rua e imediatamente acessei memórias. Memórias tristes e opacas. Curioso como este mesmo endereço, mesmo que aproximado, hoje me cause outras coisas. Eu sorri. Imaginei que ali existe aquela outra forma de vida, aquele outro viver.

Imaginei quantas vezes eu passei na frente daquela porta, chorando, com o coração despedaçado. Ou ainda anteriormente, perdida, tentando me achar naquela cidade desconhecida. Hoje, aquele endereço é uma vontade de presente. Quer dizer outra coisa, me diz outras coisas. Acho estranho, mas aceito e sou grata. Nunca imaginei que fosse olhar para um lugar que já foi dolorido novamente e sorrir. Mas esse dia sempre chega.

No outro caso, uma desambiguação acerca de um entendimento me levou a enxergar uma situação sob outra perspectiva. As frases foram simples, quase superficiais. Já me foram repetidas tantas vezes ao longo da vida, mas jamais daquela forma, sob aquele contexto. “Eu só quero alguém que converse comigo”, ele me disse. “Certas pessoas deixam uma ideologia guiar as suas escolhas. Por exemplo ‘Fulano é foda porque ele é isso ou aquilo’ e nunca ‘Fulano é foda porque ele me faz bem'”. Parece imensamente bobo e pode até ser. E com isso, entendi muitas coisas. Não entendi ‘da boca pra fora’. Entendi porque senti por dentro, que aquilo era verdade.

A fantasia é algo incrível. Não me lembro a última vez que pessoas próximas me fizeram tanto bem de formas tão simples. Elas jamais vão saber disso. Se souberem, jamais entenderão. Me mostram que existem muitas vidas dentro de mim. Despertam em mim uma vontade irremediável de generosidade, quando tudo o que sei fazer é me ensimesmar. Através de palavras simples e de trocas mais simples ainda, entendo que as coisas permanecem as mesmas e se transformam ao mesmo tempo. Às vezes não é tão rápido quanto gostaríamos que fosse. Nem tão perene. Mas foi bom saber que é, sim, possível.

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