Hope for punishment – II

Você me olha e os sentimentos são sempre extremos e ambíguos, uma relação de amor e ódio. Certamente, ao mesmo tempo que sente saudade – da cumplicidade, amizade e tudo o que envolve essas coisas – também torce para que eu esteja mal, ou no mínimo não tão bem quanto você. Quanto a isso existem alguns fatos: você já quis me dizimar. Inclusive já disse isso com todas as letras, me ameaçando várias vezes. Já quis me exorcizar e que eu desaparecesse da face da Terra. Fez questão de deixar isso claro ao seu próprio modo, devolvendo um passado à pessoas erradas – foi simbólico, proposital.

O que é passado pode ser esquecido, queimado, rasgado mas não: você fez questão de devolvê-lo. Você se reduz à isso. Você se contenta com pouco. Com pouco demais. Usa sua depressão como sinal de superioridade em relação à todos, em relação à vida. “Não preciso de vocês, não preciso de ninguém”. Sempre foi assim. Só não entendo seus eternos retornos. O que te falta? Sempre me faço essa pergunta “o que te falta, agora que você já conseguiu tudo o sempre que quis?”. Qual é a intenção em observar a minha vida fodida? De alguém com tanta má sorte?

Tenho tentado entender e estudar isso, pensar com um pouco mais de paciência, seus sapatos, meus sapatos e tudo o mais. É difícil chegar a algumas conclusões pois sempre pendemos para nosso próprio lado, o que é errado. Às vezes tanto os outros quanto nós mesmos esperamos que alguém seja punido por nos terem causado algum mal. Se esse mal foi intencional ou não, pouco importa: causou mal. As circunstâncias, os contextos, nada disso também importa muito. O que importa é que alguém foi ferido de algum modo, em algum momento. E então, devem pagar por isso.

Mas o que acaba sempre acontecendo é que, além de não reconhecerem (nunca) o mal feito, as pessoas raramente são punidas. Porque a vida não funciona assim. Às vezes a vida até mesmo as recompensa. Justiça divina é uma ilusão, o mundo é de quem sabe manipular o que tem em mãos de modo que cause o maior dano e saia ileso. Mas os ressentimentos, incontáveis, perduram. Os ressentimentos nunca cessam, se repetindo na memória, no coração, na alma. E mesmo que os anos passem e as coisas mudem, eles permanecem, intactos, reais, permanentes. Ressentimentos são sólidos monólitos.

São coisas que você nunca vai poder ter. Ou são coisas que você gostaria que não tivessem acontecido, comigo, com você. Algo que não saiu como planejado. Alguma reação ou não reação com a qual você não contava. Algum acontecimento inexplicável, uma vontade no meio do caminho, o que seja. O que aconteceu foi vida, foi movimento, pulsão. Incontinências. São coisas que poderiam acontecer na vida de qualquer pessoa. São coisas que causei – querendo ou não – e que, por este motivo, você deseja – abertamente ou pior ainda, secretamente – que eu me ferre. E que eventualmente eu seja devidamente punida por isso.

Mas sabemos que não é assim que as coisas funcionam. Que a vida não é assim. Não vou ser punida e também não vou me ferrar por conta de nada que tenha feito. Isso não está sob o controle de ninguém. Não posso fazer nada. Você também não. Viva a sua vida da melhor forma possível e se possível me extirpe dela para sempre, como se eu jamais tivesse existido. Como se eu fosse o pior dos erros que você já cometeu. A filha da puta que desapareceu, que deixou de ser sua amiga, que amou quem não devia, a ingrata, filha da puta incompreensiva, incivilizada. Sei que fui, mas a essa altura já não importa mais tanto não é mesmo?

O curioso, é que se eu tento viver a minha vida da melhor forma possível e deixo isso claro, pensa-se que eu “jogo na cara” que vivo bem, que estou feliz e que isso parece irreal. Se eu digo que as coisas são difíceis, que sofro, que me sinto uma fodida e que a vida é uma merda, pensa-se que eu estou fazendo um drama desnecessário e só estou falando essas coisas para aparecer, porque quero chamar atenção. Não importa o que eu faça ou o que eu pareça fazer, há anos deixei de ser uma pessoa para se tornar um objeto: a filha da puta. A quem se ama e se odeia. Eternamente darei vazão a sentimentos ambíguos, hesitantes e incompletos.

E é isso o que te fará voltar a me olhar, repetidamente. Olhares ora insatisfeitos, ora indignados.

Mesmo que seja por poucos instantes.

A punição está sendo de quem?

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