Demandas

Hoje foi uma pseudo segunda-feira. Saí de casa e passei o dia com o olhar nulo, não via mais nada. Às 18h fui em direção a Avenida Paulista para tomar um ônibus pra casa e me senti embaixo d’água. Carros, ônibus e centenas de pessoas passaram por mim e eu passava, como se de ressaca. Você me disse que eu era como domingo. Fez muitas perguntas, embora não tivesse pressa alguma pelas respostas. (Um domingo não precisa ser explicado). Como seria a textura de uma manhã de domingo, ao toque? O que haveria de diferente em olhos de domingo? O quão lento e, ainda assim, o quão contínuo esse domingo poderia ser? Não satisfeito, insinuou pensar ainda em modos de se apreender e de se desperdiçar um domingo, sussurrando que talvez os melhores dias sejam aqueles que desperdicemos com menos cuidado. Não bastando isso, passou então a fazer demandas: um domingo lentamente úmido, um domingo que molhe os dedos que o tocam. Um domingo que se abra lentamente, que deslize pela ponta dos dedos. Um domingo que tenha cheiro, que tenha gosto, que seja quente. Um domingo que tenha sutis reentrâncias, que tenha absurdos relevos. Um domingo que tenha segredos. Um domingo que saiba e sinta e prove e revele cada textura que guarda em si.

E assim, ele fez o tempo parar hoje, nessa segunda-feira errada.

(Ele me disse que eu era como um domingo.)

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