Velhice

Acho que estou aprendendo a lidar melhor com a velhice. A minha, a dos outros. Olho pro rosto de M. e a acho perfeita. Ela tem 17 anos. A sobrancelha, os lábios, mas principalmente essa região dos olhos… Dizem muita coisa. Nada – ou pouquíssima coisa – passou por ali ainda. Coisa alguma. Nada de muito, muito mal. O frescor de uma juventude sem olheiras, sem preocupações, sem desamores. Algumas pessoas são capazes de levar a vida inteira assim. Quando eu era mais nova eu não tinha olheiras. Me lembro que, antes de sair à noite, eu maquiava minhas olheiras. As inventava, as desejava, como inventei o desejo por várias outras coisas na minha vida. Hoje, as tenho gratuitamente e sinto que deveria me envergonhar um pouco delas. Mas não faço nada para disfarçá-las. Elas dizem muitas coisas sobre mim. Dizem que aqui existem noites mal dormidas ou de pouco sono. Dizem que há cansaço. Podem inferir que houve desamor. Que aqui já existiram algumas coisas, parece. Essas olheiras podem não me dar autoridade de / para nada, mas ao menos elas dizem que eu já existi por alguns breves momentos. E que agora vejo as coisas de outras formas. Olho para M. Ela é tão, tão bonita. No meu coração, eu só espero que nada de mal lhe aconteça. E quando eu olho para ela, é como se eu fizesse uma oração.

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