Toujours sur les yeux

Na época que eu o conheci, ele era apenas um menino. Tinha algo de andrógino, não saberia dizer o quê direito. Seu rosto era muito liso, muito branco e havia uma suavidade indescritível ali. Era um menino franzino, meio corcunda, mas o sorriso e a suavidade do rosto mudavam tudo. Eu não o conhecia direito na verdade. Era um amigo de amigo de amigos. Um dia, não me lembro exatamente quando, esse menino me pediu um livro. Acho que foi por volta de 2004 ou 2005. Era um livro que eu tinha ganhado de um antigo amor.

Eu li o livro todo e não me lembro do título. O livro falava sobre amores decadentes, uma anunciação de tudo. Na época eu ainda não tinha o meu nome. Não me recordo direito como acabou o que eu tive com a pessoa que me deu esse livro. Mas suspeito que ele tenha escrito alguma malcriação sobre mim em algum texto e aí eu fingi que fiquei triste e fingimos que acabou – porque na verdade já tinha acabado há algum tempo. As coisas sempre acabam antes de terminarem de fato e todo mundo sabe disso. E as coisas continuam existindo, mesmo tendo acabado. Enfim, o livro.

Esse menino – o chamo de menino, não sei porque sinto como se ele fosse muito mais novo que eu – me pediu esse livro sobre amores decadentes. Achei estranho, um menino tão novo me fazer esse pedido. Dei a ele o livro. Não sei o que se passou com o livro desde então, também não perguntei mais. Não nos falamos nunca mais, acho. Outra vez que o vi foi numa festa onde, numa fila indiana de cumprimentos ele evitou um antigo amor como o diabo. Cumprimentou três pessoas em sequência e quando os dois se colocaram de frente, foi como imãs se repelindo. Lembro que ver aquilo me chocou bastante. Fiquei me perguntando o porquê de aquilo ter acontecido. Achei triste.

Há algumas semanas o reencontrei, a rede é curta, devo ter visto alguma foto em algum lugar, readicionado não sei onde eu nunca me lembro. Vi um gato (o animal) e o mesmo menino, mas ele estava diferente dessa vez. O rosto dele mudou de forma absurda, aquela suavidade que eu conheci desapareceu. Alguns desenhos, havia um altar, mas eu ainda tentava enxergá-lo naquele rosto, sem muito sucesso. Uma barba rala. E aquele olhar, fundo. Existe aquele brilho que acontece, aquela aura que se evidencia, toda vez que ele aparece fazendo algo que gosta. Mas o olhar ainda está ali. Tornou-se um menino velho. Ainda delicado, ainda sensível mas a suavidade esgotou-se, parece. Não foi fácil, mas conclui que a aspereza lhe caiu muito bem.

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: