097/2014

Preciso abrir meus olhos. Preciso achar um denominador mínimo comum, extrair o que de mais valioso existiu em cada uma das coisas, embora isso pareça impossível. Não consigo tratar as coisas como objetos separados, veja bem, sempre há o outro, sempre há a necessidade de enxergar algo, um movimento, uma palavra. Descrever me cansa, mas de modo geral existe um momento, sagrado pra mim, que é o de dissolução. É uma fantasia, uma irrealidade, que existe em pequenos acontecimentos, em memórias retraídas, escassas, perenes. São detalhes quase esquecidos do que aconteceu e nunca tenho certeza se são lembranças ou fantasias. Traio a mim mesma. Existe a lembrança da luz que atravessa a porta, das portas trancadas, silenciosamente. De beijos e hálitos roubados, daquele abraço que jamais foi um abraço, que nunca teve nome, que não queria soltar, um agarramento primordial, primitivo. A dissolução. Não há ninguém ali, não há nada em jogo, existem apenas vulnerabilidades. E aceitação. E coisas sem nome ainda, permanentemente indefiníveis, uma linha permanentemente borrada. Parece com o mar, pareço com as ondas, fico sempre voltando. Basta a simples menção de um nome para o meu rosto se iluminar inteiro, meu coração bater mais rápido e sentir que posso reviver aquilo tudo na minha mente, novamente. Você dormindo e eu acordada, velando o seu sono, tão vulnerável quanto sua inconsciência. Você encostar a mão no meu peito e me empurrar para o fundo do mar. E eu quero tocar o fundo desse mar. Queremos, embora ele não chegue, nunca chegue. No meio disso tudo, no meio de tudo o que acontece, de todos os objetos, sempre queremos um chão. Ou um teto. Ter noção de algo. E isso é impossível, pois a partir do momento em que as linhas começam a ser desenhadas, a fantasia se torna real e sendo real, é desfeita. Tudo torna-se mentira. O desligamento, a morte (to die into one-ness), só ocorre quando não estamos ali (quando somos um, quando somos O TODO). Tolos que somos, esquecemos, que o que se tem (nunca é o que temos, não é nosso) é imensurável. Inominável. Não é nem mesmo nosso. Não há forma, nem pretensão. Não é disforme, é amorfo. Não há relação, não existem objetos, as coisas apenas passam por nós, passamos pelos lugares, ambientes, sons, vozes, mas gozamos apenas porque somos. E estamos, apenas. Apenas por isso. Não há como chegar aí, não há como chegar nisso, não somos nós quem decidimos… Alguns acreditam que já está decidido por nós. Não sei mais no que acreditar, acredito nas minhas (más) decisões. Acredito em serendipidade. Em sorte. Em más, aleatórias, insensatas escolhas, nomeie como quiser. Sinto que nada importa e todas as vezes são parecidas, mesmo diferentes: nos olhamos (você olha pra dentro de mim e eu olho pra dentro). Nos olhamos, sem piscar. Existe uma sincronia, a rosa no peito, a troca de hálitos, existe, a pressão nas costelas, as janelas dos vizinhos, a carne maltratada. Tudo isso existe e tudo isso jamais basta. A linguagem, de olhares, sem palavras, de mãos, entendimentos, sutilezas, insinuações. Meu corpo, seu corpo, o cérebro primata existe, toda a biologia, o que você faz, o que não faz, e o que eu percebo e tomo como certo. Não é o suficiente. Há a intuição visceral e sempre correta do que vai acontecer e – principalmente – do que deve acontecer. Deveria bastar. O eterno retorno. Meu nascimento nesse mundo e para esse mundo foi para provocar uma cisão. E este é o meu significado, esta é a minha repetição, este é o meu currículo (que agora compreendo e aceito). Sou um meio, sou uma mula. Minha existência serve apenas para lembrar ao outro que ele não é dono do seu destino. Sirvo de bode expiatório. Sofro por isso. E provavelmente devo estar pagando por isso porque devo algo, já a algum tempo (admito a culpa). Queria poder ser feliz, mas isso não é algo que posso escolher. Preciso conviver com o que sou e com o que será de mim. Queria fazer diferente e gostaria muito que as coisas mudassem, que mudassem de novo como daquela vez. Mas querer nem sempre é o bastante, já pensei sobre isso antes, sobre querer se livrar da dor, ou de algo que incomoda. Às vezes as coisas são mais complexas do que o que queremos. Mas seria interessante sim, aquela vontade quase que inabalável de fazer tudo diferente de novo. De também ter coisas minhas (ícones) por direito. De me sentir desabrochar por mim mesma, ao meu próprio tempo, como tudo deveria ser. Mas essa vida não é a minha e isso não é para mim. Resigno-me ao meu currículo e apenas observo o que me resta. O que ainda resta ser feito. O que ainda existe. E abro meus olhos. Observo detalhes e aceito o desafio de continuar a mantê-los bem abertos.

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