092/2014

Eu li em algum lugar que, quanto mais coisas você faz, mais rápido o tempo passa. Essa coisa de tempo e espaço tem sido diferente pra mim agora. Tenho pouco dos dois. Não sei como preenchê-los. Pareço nunca ter o suficiente de nenhum. Não tenho tempo pra pensar no que quero, não tenho espaço para as coisas que amo. Parece que eles me são subtraídos, roubados mesmo em alguns momentos, pelo passado, pelo que há, por arrependimentos que sequer deveriam existir. O que aconteceu, aconteceu e o que deveria importar é o agora, somente. Não há nada que eu possa fazer para fazer isso parar. Às vezes eu apenas gostaria que fosse fácil. Às vezes eu penso que não mereço tudo isso. Mas se eu vivesse fora disso, minha vida provavelmente teria ainda menos sentido do que tem hoje. Não tenho tempo pra fazer tudo o que eu quero, nem mesmo pra ter tudo o que eu quero. Queria um gato, mas não posso porque sou sozinha e não quero ser irresponsável. Tenho pensado demais, tenho sido impulsiva de menos. Tenho escolhido coisas demais. A impressão que eu tenho é de que o tempo é curto demais para continuar cometendo erros. Na verdade, não sei mesmo o que escolher. Então escolho o que estiver pela frente e me obrigo a pegar no tranco. Vejo coisas escapando de mim. Vejo que quero fazer mais, produzir mais, mas me vejo inerte, pensante. Dear prudence. Sinto um medo absurdo de viver, da vida, das coisas. Tenho medo de me machucar repetidamente e não suportar mais isso, em algum momento. Isso me paraliza, inibe qualquer tipo de desejo que eu tenha. Mas volta e meia acontece algo que me obriga a repensar tudo isso. A pensar que tudo isso, na verdade, não tem tanto problema. Quando alguém que você conhece morre tirando a própria vida é assim. É como se o suicídio metesse o pé no freio não só do outro, mas no seu também. São sentimentos confusos. “Como ela pôde?”. “Como eu queria!”. Essa morte criou um espaço pra que eu pudesse pensar, em mim, em coisas. Sua ausência criou um espaço em mim, me deu um tipo de tempo diferente deste o qual estou acostumada. Um tempo paralelo, toda vez que penso nela. Um tempo de “E se..”‘s, que insistem em ficar em loop na minha cabeça. Me fez repriorizar certas coisas. Esse final de semana, enquanto eu meditava sobre a sua morte – uma morte verdadeira, uma morte de fato, irrecuperável – eu consegui ser produtiva. Consegui fazer coisas que antes não havia motivação, ou era mais difícil que eu fizesse. É como se ela me dissesse, num tom suave como a voz que conheci: “Dora, você tem todo o tempo do mundo e estes espaços que você tem agora, são todos seus”. Tenho todo o tempo, tenho todo o espaço, tenho toda a angústia como ela também teve, só que a minha é suportável, tolerável, por hora. Só há falta de execução – minha própria, das coisas – na minha vida porque sou uma covarde. E deleto da minha vida tudo o que for espelho, todos os covardes que conheci são tipos errados de heróis, com os quais não mereço me identificar. Não são, não devem ser, dignos de empatia.

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