I only had one lover

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Comprei uma blusa de inverno cinza e usei ela hoje pela primeira vez. Estava frio de manhã e saí também com o cachecol vermelho. Atrasada, sempre. O dia passou como sempre passa. Caminhei pra onde sempre caminho, tento em vão manter o hábito de fumar pra prestar mais atenção na minha respiração. Ponho o pé no freio da rotina e relaxo, deixo suspensos meus pensamentos, subo pra aula.

a.

Vamos nos encontrar na estação Paulista? Cruzo os braços, acendo um cigarro. Recebo um abraço apertado quebra costelas, olhos sorrindo pra mim, cheios de curiosidade. A linguagem corporal é bastante óbvia. Eu nunca sou a primeira a encostar, eu nunca quero que seja real. Mas ela existe: a leve inclinação, os pés em andeor, o tênis ao lado do tênis, o olhar amistoso que o cigarro provoca, a química da nicotina na cabeça que desacelera, vulnerabiliza, lubrifica a conversa e a espera. Estou cansada, tenho um jantar pra fazer de almoço amanhã, tenho textos pra ler, coisas pra escrever e entramos no ônibus. Recosto minha cabeça no seu ombro e você faz cafuné em mim, suas mãos tremendo. Isso é completamente desnecessário, não precisa ser assim e então eu te beijo, protocolar. Eu queria – o beijo – mas queria acabar com aquilo também. Eu faço as coisas para acabar com elas. Falei no seu ouvido que vou ser um engodo, mas você não se importa, então tudo bem. De repente me aparece uma vontade de falar de tudo. Uma vontade de contar todas as coisas, que você saiba tudo sobre mim, pois é assim que sempre agi. E me sinto incrivelmente cansada, de repassar todas essas histórias na minha cabeça. Te poupo disso. Te poupo de cada uma delas. Não vou dizer nada, não vou contar nada, não sei nem o que é isso. Não quero mais saber de tudo, de todas as histórias, de tudo o que aconteceu. Engulo essas histórias, as mantenho pra mim. Você não merece, eu não mereço, ninguém merece. Te deixo na esquina, um abraço apertado e uma promessa a ser cumprida. Uma promessa efêmera, pois esse é o único tipo que ando disposta a aceitar.

e.

Você vai me levar até o topo de uma montanha deserta e querer que eu grite de lá de cima. É muito provável que eu o obedeça. Você faz coisas esquisitas quando está bêbado e estando comigo, você certamente estará bêbado (porque você é assim). Você falará numa língua que não entendo, você falará em várias línguas que eu não te entendo, você estará frio e eu finalmente poderei te entregar seu cachecol verde, preto e branco que fiz pra você. Queria sentir suas mãos apertando meus ombros enquanto você diz “que bom que você está aqui, vamos nos divertir”. Só isso seria o suficiente. Apenas isso e eu já poderia voltar pra casa.

d.

Provavelmente estarei alcoolizada porque sou tímida. Não tenho coragem para te dizer tudo o que eu gostaria de te dizer. Vou me restringir a manter uma distância saudável, apesar de querer te abraçar. Acho que você é a única pessoa que eu sinto vontade de abraçar e dizer que tudo pode ficar bem. Note: tudo pode não é garantia de que tudo irá, lindinho. Quero descobrir a linguagem que pode falar ao seu coração. Mas sou atrapalhada com essas coisas e sei que não vou descobrir nada. Mas estarei perto. E estarei por perto. Sempre a uma palavra de conforto à distância. É o que importa.

c.

Quando eu chegar em Bruxelas, vai ser diferente de como foi no Rio daquela vez. Você vai estar me esperando com uma plaquinha no aeroporto e provavelmente como conhece melhor a região, já vamos ter marcado de comprar as passagens direto pra Holanda. Não vamos poder perder tempo porque eu vou estar de passagem, mas vamos andar de bicicleta e passear por alguns lugares desconhecidos num lugar desconhecido. Só quero que você, como um bom moço, me leve ao Red Lights District. Mas também quero reservar um dia inteiro só pra ficarmos só trancados no quarto do hostel fumando maconha e procurando um ao outro entre os lençóis. Clichê, mas a vida inteira é um clichê muito do mal feito então não estamos perdendo nada aqui. Nota importante: não deveremos ter nenhum tipo de restrição moral, independente da época em que isso acontecer e do contexto de nossas vidas.

b.

Vocês raramente se atrasam. Chegam juntos e eu não sei bem como agir. Nunca soube. Falam sobre o trânsito, falam sobre um possível atraso, falam sobre algo de um cotidiano particular que não me pertence. Que jamais irá me pertencer. Sinto um bem querer no peito toda vez que os observo. A mera existência de vocês me faz acreditar que coisas boas ainda podem existir, não pra mim, mas no mundo. Os olho com o olhar mais terno que consigo fazer e isso é notado por vocês e por quem nos observa. Me faço então adaptável em sentidos que eu jamais imaginava ser, e em situações onde isso é demandado de mim. Minha voz fica ora mais grave, ora mais aguda, me sinto um experimento entre quatro mãos, me sinto uma experiência. Sou a melhor experiência de mim mesma, entre vocês. Vocês podem atuar para o mundo todo, mas não precisam atuar pra mim. Me dissolvo inteira dentro de um olhar meigo e de um sorriso tímido, dentro de toda a suavidade que é possível. Me reafirmo quando sou posta contra a parede e um olhar me observa, nos observa, severo, intacto, pleno, quase satisfeito. Convivo entre vocês, por um segundo, por alguns momentos, pela eternidade.

 

 

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