Reigns

a.

Esses dias uma conhecida mais velha e mais sábia que eu, me perguntou “se você pudesse se livrar de uma dor, qualquer dor, você gostaria de livrar-se dela ou mantê-la?”. Não tentei dar uma resposta óbvia e pronta pra uma pergunta aparentemente imbecil. Ela falava de uma cisma, de uma dependência e não necessariamente de uma dor física. Era possível englobar uma série de coisas, imaginei. É claro que ninguém conscientemente quer permanecer, indeterminadamente, com dor alguma seja ela subjetiva ou nem tanto. Pensei um pouco e, na minha infindável e infinita ingenuidade, decidi que não queria, mesmo, permanecer com a dor. Que preferia me livrar dela pra assim viver melhor. Que preferia que ela passasse, sumisse, desaparecesse. Porque viver com dor é mesmo muito ruim. Em sua sabedoria, ela apenas me desejou sorte e que a minha dor finalmente se aplacasse algum dia.

b.

Sou bastante cética e quase sempre que consigo, desconfiada. Desde que vim morar na Liberdade, nas lojas que frequento via um produto que prometia tirar qualquer tipo de cheiro da sua mão. Não era caro e era bem simples: um sabonete de inox, onde só era necessário lavar com água fria pra tirar o cheiro das mãos. Cozinho quase sempre aos finais de semana e utilizo muito alho e cebola. O alho particularmente deixa um cheiro muito forte nos dedos, difícil mesmo até de tirar com sabonete comum. É um cheiro que demora dias pra sair. Demorei meses até me decidir por comprar o sabonete de inox. Não acreditava na mágica que a propaganda dizia que faria, mas acabou que era sim verdade. Descobri também que esse sabonete tirava outros odores das mãos como por exemplo o de água sanitária. Achei incrível, esse sabonete. Tive vontade de comprá-lo para pessoas que gosto muito e que também cozinham, mas não entendia porque jamais o fiz. Mantenho esse ‘sabonete’ na porta da geladeira, pra uma melhor eficiência na hora que eu for usá-lo. Ele deixa um cheiro ferroso nas mãos, que pode facilmente ser tirado com sabonete comum e aí sim a mão fica super limpa. Hoje percebi que, de alguns tempos pra cá – não sei precisar exatamente quando – quando estou usando o computador ou fazendo alguma outra coisa com as mãos, percebo sensivelmente que o cheiro de alho está ali. Acho muito desagradável na hora, mas nada faço. Não é o sabonete de inox que está deixando de fazer efeito. Eu estou parando de usá-lo. Por que isso acontece?

c.

Quando eu era adolescente, antes de tudo, antes da internet fora da internet, antes da internet ser banida da internet, eu visitava sites que me fizeram eu me acostumar com as piores coisas já vistas pela humanidade. Era praticamente um Videodrome: vídeos, fotos, imagens, tudo possível e imaginável do PIOR que o ser humano é capaz de realizar passava pela minha retina inabalável. Tudo aquilo começou a se banalizar pra mim e a se internalizar com tanta força à quem eu estava me tornando (eu estava em formação, era nova) que fui percebendo, aos poucos, que talvez eu não devesse ser tão curiosa em relação a coisas tão, tão obscuras. Mas como sempre, eu sempre acabo indo longe demais. I love to hit rock bottomChegou um momento em que eu não sentia mais nada, onde cheguei ao niilismo total. Não sentia choque, não sentia nojo, não sentia tristeza. Tinha sonhos surreais onde eu assassinava gente e acordava como se nada tivesse me acontecido. Imaginava que se um dia alguém se matasse na minha frente, eu possivelmente não daria a mínima. Qualquer situação extrema jamais era extrema o suficiente pra mim. Me tornei uma adolescente insatisfeita e entediada, que estava sempre querendo mais, quanto mais depravado melhor, quanto pior melhor. Tudo que não fosse muito doentio era um tédio pra mim. Mas ao mesmo tempo que eu me entediava algo muito mais aterrador acontecia dentro de mim: eu simplesmente entendia, dentro de mim, que tudo aquilo que eu via e consumia não podia – e não iria – mudar. Nem parar. Aprendi isso cedo demais, rápido demais. As coisas não mudam: sempre parecem outras na superfície, sempre são as mesmas na essência. Sabemos disso. Deixei de sentir horror e estar consciente disso era horrorizante pra mim. Queria sentir as coisas novamente. Queria sentir qualquer coisa novamente. Queria me sentir mais humana. Queria me permitir sentir compaixão e empatia pelos outros, pelas coisas, por tudo. Foi uma escolha, possivelmente uma das decisões mais conscientes que tomei, tão cedo. E isso só seria possível se eu rompesse com esse padrão de consumo de mortes, torturas, abusos, violações. Tudo de pior já produzido pelos piores homens do mundo. Pensei que fosse ser mais difícil do que foi. Esse mundo ruiu para mim e voltei a me tornar uma pessoa temente à tudo, assustada, cheia de horrores, com toda a carga emocional que a insegurança que uma vida adulta traz a uma vida jovem. No entanto, algumas coisas jamais mudam.

Eu ainda sou aquela que não abala o olhar.

(quando me presto a enxergar algo)

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