Casa

Eu morei praticamente por cinco anos no mesmo espaço, 5×4 ou algo assim. Acampada. Minha mãe dizia que aquilo era um muquifo. Eu sempre concordei. Só levei pra lá alguns amantes que tive entre 2007 e 2011 porque, bem, não tinha outro jeito. Não tinha coragem de levar ninguém real pra lá: minhas amigas, pessoas de fora, meus pais. Não me sentia bem em receber ninguém lá. Eu mesma nunca me senti muito à vontade naquele lugar. Eu sabia que era temporário, desde o início. Cinco anos é bastante tempo, dá pra fazer bastante coisa, consegui concluir uma segunda graduação, começar e terminar um namoro, tomar decisões, desistir de decisões. Nunca acreditei que fosse me adaptar em Florianópolis a ponto de querer viver lá para o resto da vida. No final de 2011 entrei em desespero por ter passado no mestrado pois pairava a tentação de morar por mais dois anos por lá quando na verdade eu não suportava mais nada naquela cidade: a vizinhança, a universidade, os bairros, nada na verdade. Meu próprio estilo de vida, não combinava mais comigo, não queria mais aquilo. Não sabia o que queria, só sabia que queria outra coisa.

Ainda não me sinto em casa aqui onde estou. Mesmo o espaço sendo um pouco maior e eu me sentindo um pouco melhor acomodada, não me sinto em casa. Não sinto mais vergonha de trazer, por exemplo, minha mãe ou qualquer outro familiar aqui. É um lugar espaçoso, onde cabem pessoas. Onde não me sinto amontoada, sufocada, pressionada. Me sinto menos ansiosa e mais aproximada da ideia do que viria a ser uma casa. Penso que queria mudar as coisas aqui, fazer reformas, deixar não só habitável mas customizado mesmo, com as cores que eu gosto, com os móveis que quero, com coisas minhas. Só que esse lugar não é meu. E tudo o que eu fizer para customizar esse ambiente, ficará por aqui mesmo quando eu for embora. Será um dinheiro desperdiçado à toa, com algo que sequer poderá me trazer algum tipo de retorno. Não vale a pena, a princípio. Mas faz pouco tempo que estou aqui. Dois anos só. Quase metade do percurso que fiquei na outra cidade. No entanto, a sensação de impermanência continua. Esse lugar não é meu, esse lugar não sou eu, estarei pronta para ir embora a qualquer momento.

Penso em comprar móveis. E toda vez que penso nisso, hesito. Mas vou acabar fazendo isso, eventualmente. Não me vejo nesse lugar onde estou, mas não me vejo fora de São Paulo. Eu quero um lugar que seja meu, nem que seja para que eu possa abandoná-lo, alugá-lo, revendê-lo, etc. Um lugar que eu possa deixar como quero, como gosto, onde eu possa investir sem pressa, sem maiores preocupações. Um lugar que eu possa cuidar e me dedicar. Um lugar pra onde eu sempre possa voltar e dizer que é meu, onde se encontram as minhas coisas, etc. Eu quero isso e sei que quero isso. Nada vai me impedir de ir pra qualquer outro lugar, mas esse lugar precisa existir. Eu tinha um quarto em Campo Grande mas ele não existe mais desde 2010, acho. Talvez, 2011. Virou um quarto de bebê. Minhas coisas praticamente sumiram. Não me perguntaram nada, não me pediram nenhuma permissão pra nada, simplesmente transformaram o que era meu em sabe-se lá o quê. Quis reclamar mas não era o momento. Nunca é o momento. Isso já aconteceu tantas vezes na minha vida e eu sempre permiti, então não seria naquela época que isso mudaria.

Mas antes disso tudo, tenho algumas outras prioridades. Ainda preciso repensar as coisas que faço, mas por enquanto estou relativamente satisfeita com o rumo disso tudo que posso controlar, aparentemente. Um dos meus objetivos para os próximos dois anos e meio será trocar de nome. Minha identidade já é toda zoada de qualquer forma. O único argumento que me colocam é o de que “não tem necessidade nenhuma você fazer isso”. Se é tão indiferente / desnecessário assim pra quem se vale desse argumento, então acho que estou no direito de pleitear o que eu quiser. Todos os meus esforços serão voltados para isso, nesses próximos anos. Depois que eu conseguir isso e esta etapa estiver finalizada, farei uma viagem internacional sozinha, Haverá uma boa dose de couchsurfing e coisas idiotas que pretendo fazer como encher a cara atravessando cidades em becos esquisitos a noite. Essa é a segunda coisa que quero e preciso fazer na minha vida. Quando essas duas coisas estiverem realizadas, eu acho que penso numa casa. Sendo bastante pessimista, acredito que em dez anos consigo realizar essas coisas.

E a casa… Bem… A casa que sinto tanto como prioridade em alguns momentos, acho que pode esperar por essas coisas. Muita coisa pode acontecer nesse meio tempo e a minha casa pode se tornar outra coisa, inclusive. Ainda não estou pronta pra me acomodar, preciso que algumas coisas mais aconteçam antes disso. Ainda preciso me tornar quem eu sou e conhecer lugares onde eu já deveria ter ido há muito, muito tempo. Lugares que também me pertencem.

 

 

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