Nada pessoal

Você não é de direita. Você não é de esquerda. Não é “petralha”, nem “reaça”, nem “compa” de causa nenhuma. Nas mesas onde se assinaram os tratados que foderam com a sua vida, ninguém tocou no seu nome. Da mesma forma, quando as leis que garantem os seus “direitos” foram criadas, ninguém sequer sabia que você tinha nascido. Os líderes que você ama mais do que ao seu vizinho (sabe, aquele que você nem conhece mas detesta) nunca estiveram nem aí pra sua existência. Não é nada pessoal. Nunca foi.

Mandaram você ser um vencedor. Apontaram, com o relógio na mão: “Vai!” E você foi. Mandaram você ser um contribuinte, um cidadão, um exemplo. Mandaram você ser um subversivo, um rebelde, um boina-preta cheio de atitude. Um advogado. Um policial. Um candidato a reality show. Mandaram você bater, e você bateu. Mandaram apanhar. Você apanhou. E nunca foi pessoal.

Você não deve obediência a partido nenhum. A instituição nenhuma. Não deve lealdade a nenhuma bandeira, nem precisa calar a boca quando o hino toca. Não é o seu hino. Não é a sua bandeira. Não é o seu partido. Você lê o horóscopo da semana? Eu não. Ele não foi escrito pra mim. A senhora que ganha uns trocados pra escrever o horóscopo da semana não me conhece. Ela tem mais o que fazer. E eu também. Não é nada pessoal.

Você não vai estar no banquete de inauguração da Nova Terra, seja lá o que a Nova Terra for. Não vai brindar com os mártires da revolução, nem ter o nome numa lista de agradecimentos “aos que deram suas vidas pra que blablabla”. O seu RG não está em nenhuma lista de inimigos do Estado. O seu discurso colecionador de desafetos é inofensivo. É um espinheiro no deserto, e você se acostumou a se debater sozinho dentro dele.

Sabe, na minha rua tem um cachorro que dorme do lado de fora do mercadinho. Observando vocês dois tenho a impressão de que o sono dele é mais tranquilo.

A sua raiva não vai derrubar o mal. Bater ponto na fila do ódio não vai fazer os fascistas pensarem melhor antes de aprovar a próxima PEC, nem a sua intolerância engajada representa nenhuma ameaça à Bancada Evangélica. Assim como nenhum pastor homófobo contador de dinheiro estará gargalhando enquanto assiste a sua guerra pessoal de todos os dias contra seus próprios amigos em nome da defesa do seu direito de se revoltar contra tudo e todos. Porque não é nada pessoal.

É muito mais fácil derrubar coisas. Eu mesmo já derrubei paredes, sabe. Não dá trabalho. É fácil. É divertido. Erguer uma casa – também já fiz isso – é outra história. É casca, mesmo.

É muito mais cool gritar FODA-SE. “No future for you” é um belo refrão. Quem ousa desafiá-lo? Você? Claro que não.

Você não é gaúcho. Você não é paulista, nem paraibano. Nem gremista, nem colorado, nem social democrata. Não é evangélico, nem espírita. Você não é nem brasileiro. Nem mesmo branco você é. Você não é nem esse corpo. Você mal percebe pra onde esses pés emprestados estão indo. Um dia, quando tiver que devolvê-los, muito provavelmente você vai perceber que não eram seus. Que nada era seu. Que nada disso tudo em que esteve metido foi pessoal.

Mas antes de me odiar, lembre-se de que eu não te odeio. Não teria sentido. Eu nem sei quem você é. Porque gastaria energia nisso? Energia é como dinheiro; se você gasta com bobagem, vai sentir falta quando precisar.

Antes de tomar o meu falatório como um convite ao conformismo, lembre-se de que é bem o contrário. Eu quero te fazer pensar por um minuto que, enquanto acha que está agindo, você não está fazendo nada por você. Não está cuidando de você. É um ator interpretando um átomo de ódio dentro de uma célula de ódio dentro de um organismo de ódio. E o organismo dança uma dança de ódio que, aí de onde está, você nem mesmo é capaz de enxergar.

Não estou querendo que você se sente comigo diante da fogueira e assista ela queimar. Isso não é mais possível. Você e eu estamos dentro dela.

Eu vou defender até o fim o seu direito de fazer da sua vida o que quiser. Mesmo sabendo que ninguém existe sozinho nesse mundo, o que pressupõe que a sua vida e a minha vida coexistem. E que os seus atos e os meus atos se afetam. Ter consciência disso é doído, mas é justo que assim seja. É o que chamam de Arbítrio, e acho que Arbítrio é a mais sagrada e elegante das leis humanas, porque, por mais desastroso que seja o uso que se possa fazer dela, é provavelmente a que mais nos aproxima da ideia de sermos herdeiros de uma linhagem de divindades.

Você não nasceu pra virar graxa na máquina do ódio. Você merece coisa melhor. Eu não te conheço e gostaria que você se se odiasse menos.

Agradeço por ler isto até aqui. Mas não se preocupe em “curtir”. Você não precisa curtir coisa nenhuma. Nem precisa que ninguém lhe diga o que fazer. E isso obviamente me inclui.

Essa época não precisa te foder, e nem você a ela. Essa época nem se deu conta de que você veio ao mundo.

Porque o tempo não tem fim, e essa época é um mísero milésimo de segundo na História. E ódio é um jogo pra fracos.

Porque não é, nunca foi, nem nunca vai ser nada pessoal.

[Texto roubado de Ron Selistre]

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