Lombadas

Sentei naquela poltrona que até agora não sei se é confortável ou não. Talvez o ambiente faz com que ela fique mais confortável. Não sei se é pra ser confortável, também. Ian pediu que eu esperasse, pois ele estava terminando de ler um livro. Não sei se fez isso pra me testar, pra ver se eu achava rude ou porque ele é assim mesmo. Talvez os dois. Tive vergonha de perguntar qual era e sobre o que era o livro. Não é possível ver a capa de nenhum dos livros que ele possui. Ele diz que ficar olhando capas de livros é “coisa de imbecil”. Nem ousei perguntar como ele faz então pra ter tantos, de qualquer forma. Ele produz as capas de seus próprios livros, todos com pinturas abstratas, com um acabamento excelente, mas sem nenhum design gráfico, sem letras, nem indicação nenhuma de título ou autoria. Nada. Ele nunca organiza nada na casa dele. Mas a sua sala de estar me causa uma comoção completamente censurável. São várias estantes de livros, todos encapados com pinturas abstratas. Não é uma simples estante: são quadros. São quadros infinitos. Vários livros vivem jogados, mas o jogo é esse: as estantes não tem livros, tem cores… E se iluminam… E obscurecem de acordo às vezes com uma vontade, às vezes de acordo com uma aleatoriedade, sem muita previsibilidade, dependendo do tempo, da vontade, da displicência do Ian. Quero decifrar essa pessoa, mas sei que jamais conseguirei: o jogo é esse. Pensei que pudesse existir um padrão entre as cores utilizadas e os temas, alguma correlação do tipo, mas não. É caótico mesmo, tudo escolhido ao bel prazer dele. Olhava pela janela da sala e o sol se punha em São Paulo, nas minhas cores preferidas, laranja e cinza. As pessoas gostam de olhar as bibliotecas dos outros, os livros dos outros e pensei nisso essa semana eventualmente. Estava pensando se existe alguma norma ISO ou NBR que padronize lombadas. Veja bem, toda vez que vamos pesquisar livros numa estante pelas lombadas acabamos exercitando nosso pescoço: cada lombada é virada pra um lado, não existe mesmo uma formatação padronizada, onde podemos identificar o item rapidamente. Para Ian, pressa parece ser só mais uma palavra. Estava pensando no meu problema com as lombadas dos livros quando ele sentou na poltrona à minha frente e me disse: “Você é muito óbvia, Dora… Sabia? E a sua obviedade te faz mesquinha”. Leu mais alguma coisa no livro que folheava e me disse: “Seja menos mesquinha, você só tem a ganhar com isso”. Eu não soube o que pensar. Ele fala de um jeito… E me olha de um jeito. Mas não me deixo intimidar. Ele me faz pensar que realmente o colar mais bonito que eu poderia vestir são mãos estrangulando o meu pescoço.

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