The way out is through

Dizem que quando criticamos muito algo em outra pessoa é porque talvez aquele problema nos diga muita coisa sobre nós mesmos. Fico chateada com a falta de perspectiva dos outros sendo que, quando a dor é minha, crio as minhas próprias faltas de perspectivas. Me reconheço como sofredora inveterada, não nego isso. Não é bonito mesmo, não é pra ser, não quero agradar ninguém. Não sei se quero tornar as coisas piores, talvez pra mim mesma apenas, isso não machuca ninguém – bem ao menos em teoria não deveria, as pessoas podem ficar entediadas o quanto quiserem, isso também não é problema meu.

Tenho as minhas doses de sofrimento que tento não destilar diariamente, mas tem dias que é impossível, mesmo. Só consegui reconhecer isso melhor quando passei a conviver com alguém que sofre muito mais do que eu. Que sofre praticamente todos os dias, por absolutamente qualquer coisa. Tem sido muito difícil lidar, às vezes eu não consigo. Uma coisa é reclamar todos os dias das merdas diárias que acontecem e sofrer agonizantemente com isso, achando que é só com você. Outra – meu caso – é achar que a vida é uma merda pra todo mundo, que é uma merda numa perspectiva bem mais ampla.

E tudo o que a gente faz é tentar diminuir a merda ou evitá-la. Quanto mais a gente resiste ao sofrimento, mais a gente sofre. Não é claro isso? Por isso eu me permito sofrer, às vezes.. Mas ficar assim por um longo período de tempo me entedia. No entanto, considero que o meu direito de reclamar sobre o que me der na telha quando eu sentir vontade é inalienável. Se expressar é importante pra mim – se não é importante pros outros, paciência. O sofrimento é inevitável, a resiliência é importante, tentar conviver com todas as merdas também. Não estou falando que devemos ser apáticos a tudo e não sentir nada.

Mas que talvez eu devesse ter um esforço maior pra entender as coisas de forma diferente. Mas quase ninguém está disposto a fazer esse esforço, inclusive eu mesma boa parte do tempo. Ser consciente disso já é meio caminho andado. É difícil…

E é sempre assim. “Que dia fodido cara”. “Que semana de merda”. “Tomara que esse mês acabe logo”. “Que início de ano cu!”. Estão vendo como isso não acaba nunca? E são sempre as mesmas frases, em tempos diferentes. Preferimos enxergar a árvore ao invés da floresta. Isso já fez eu me afastar de algumas pessoas e com certeza absoluta já fez muita gente se afastar de mim, pois eu faço isso. Mas fiquei feliz todas as vezes que eu me deparei com alguém que me falou “cara, a porra da vida não é fácil pra ninguém, entende? Ninguém pediu pra estar aqui”.

Me sinto ok por ouvir isso, mesmo que seja difícil. Mas o curioso é que toda vez que tento falar o mesmo pra alguém, sou taxada de babaca. Eu entendo que é duro ouvir o que não queremos, mas algumas pessoas não toleram nem mesmo ser minimamente provocadas. Posso não mudar as coisas pra melhor sempre, às vezes só aprendo a conviver com elas. Tento não me acovardar quando ouço o que devo, mas em alguns casos acontecem os desgastes e principalmente os distanciamentos. Também tento ocupar meu tempo pra não ter de sobre-analisar coisas que não quero, que me atrasam, me desgastam sem necessidade.

Ultimamente tenho chamado isso de “síndrome do terreno pra carpir”. Às vezes é bom, às vezes não, fato é que eu estou sempre produzindo e isso ainda é melhor do que nada. E ainda é melhor do que sofrer, desesperadamente. Ou que entrar em depressão, etc. Também não gosto quando me dizem “tenho mais o que fazer” e trocam uma conversa por trabalho. Não sou rude ao ponto de fazer isso com outra pessoa, mas já abri mão de reflexões para simplesmente ir fazer outras coisas que me apeteciam mais no momento. Não me culpo por isso, não é a coisa mais sensata a se fazer, mas é uma forma de sobreviver.

Sim. Queria que meus amigos sofressem menos. E eu também queria sofrer menos. But the way out is through.

 

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