029/2014

Enquanto eu andava pelas ruas do centro da cidade hoje, eu pensava que andar pelo centro de qualquer cidade do mundo, de qualquer nova cidade, é o mesmo que aprender a escrever. E andar de carro seria o mesmo que aprender a digitar no computador. Não menos importante, mas uma experiência bem mais objetiva, como forma bonita de dizer empobrecida. Aprender a escrever é difícil, aprender todas as curvas e todas as intenções de cada uma das letras vogais, a, e, i, o, u, pra depois aprender todas as consoantes, e então sílabas, e pequenas palavras… Me perdi no centro de São Paulo hoje. Perdi noção do tempo, não sabia onde estava. A sensação foi boa, fiquei tranquila. Estava escurecendo rápido e eu tinha uma câmera. Fiz o que pude. É a mesma coisa: aprender a curvatura de cada esquina, pisar em casa pedra, entender a topografia da região, ruas, placas, graffittis, mendigos, gente esquecida, gente estressada, fluxos de gente, estruturas, prédios antigos, esquecidos, abandonados, ocupados. A vida entardecendo e eu ainda aprendendo. Sinto que tenho o privilégio de poder olhar tudo isso. Tirar algumas fotos é como se eu aprendesse a escrever de novo. Gosto de lembrar da cidade. Andar de carro é mais rápido, mais prático, mais seguro também mas na minha opinião se conhece infinitamente menos, se sabe menos. Se tem menos informação direta, mais informações muito específicas, leva-se em conta o veículo, as horas, os gastos, gasolina, estacionamento, o cérebro age e reage diferente. É como digitar no computador: não haverá muito erro, certamente a letra sairá perfeita, no mínimo inteligível pra quem for ler. Mas é isso. É outra coisa. Pra mim não só é diferente, como também é infinitamente mais pobre. Quase qualquer coisa que limite uma nova aprendizagem é mais pobre. Tenho uma preguiça infinita de andar pela cidade, de sair a pé fazendo fotos. Me canso bastante, toda vez. Mas parece que a vida é cansaço. A vida é só cansaço. E toda vez que eu vejo o que produzi, sinto que é como se esse cansaço nunca tivesse existido. Algumas coisas realmente valem a pena. Dou passos de turista, mas a verdade é que sonho em conviver, mesmo nos lugares que eu esteja só de passagem. Sinto que só conseguirei fazer boas fotos – fotos que me agradem ao menos – se eu morar na cidade por um tempo. Com Porto Alegre agora em dezembro foi assim. Senti vontade de morar lá, mas sei que depois do terceiro mês provavelmente me arrependeria. Não sei se quero mesmo ter esse nível de intimidade com a cidade. Pensava que eu precisava aprender a conviver, mas agora tenho achado que eu preciso mesmo é aprender a me adaptar. E a me adaptar rapidamente. A pisar de fato nesse lugar onde vivo. Mas não me faço promessas que talvez não cumpra. Para o momento, apenas continuar vivendo já é uma tarefa e tanto.

 

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