Desprezo

De repente eu me vejo num décimo terceiro andar de um duplex onde consigo enxergar boa parte do Ibirapuera e anoitece, aos poucos. Me sinto inquieta como geralmente me sinto quando ele está por perto. Ian apenas mistura alguns tons de cinza com laranja num horizonte e não me fala nada. Ele fala muito pouco. É um velho, mas seus cabelos brancos são apenas superfície. Ele tem aquele tipo de personalidade que é disruptiva por natureza, que sempre rompe com os próprios padrões. É afeito à mudanças, anseia por elas, provoca-as. Nunca está satisfeito: se algo não se quebra por si só, ele sempre estará por perto para estilhaçar o que quer que seja em mil pedaços. Ian mexe com as minhas entranhas, sempre à distância. Sinto, efetivamente, mais do que nunca, de que não sei nada, sobre a vida, sobre esse homem, sobre a vida desse homem. E sinto que jamais saberei. Não tenho expectativas, não sinto ansiedade, mas ao estar por perto dele me redescubro infinitamente, em detalhes que quase sempre a vida inteira passaram despercebidos por mim. Ele me fornece um campo fértil para que eu fantasie sobre ele, para que o observe, lentamente. Aqueles pés já andaram por estradas inimagináveis, aventuras inenarráveis das quais jamais irei perguntar. Aqueles olhos, que me olham opacos e quase sempre semi-cerrados, sempre fingem descaradamente que nunca viram nada, que acabaram de chegar aqui, que a vida está só começando, tudo de novo, tudo outra vez, encore! Aquelas mãos quase sempre sujas e maltratadas me acolhem como um pequeno pássaro e aquela boca me engole inteira e de uma só vez. Recebo cada uma de suas lições apenas a partir de olhares. E um sorriso de canto de boca me diz amplamente que eu ainda tenho muito o que aprender sobre mim mesma. Não sei onde estou pisando. Não quero ter certeza. Sou ingênua e esses dias reclamei a ele de uma luz que me foi insuficiente, de um lugar onde a minha máquina não conseguiu ir, de uma cor que eu não consegui alcançar. O faço quase sempre como que me lamentando. “Não consigo”, “não sei o que quero, Ian”, “não consigo me decidir”. Ele me olhou com desprezo uma só vez, voltou ao seu trabalho e sussurrou ‘preguiçosa’. Abri minha boca um pouco e quase falei algo, mas me contive. Botei minha mão sobre os meus lábios para refrear qualquer tentativa de resposta, engoli a seco minhas próprias palavras e apenas continuei observando ele trabalhar. Fingi que não, mas ouvi. E sei que ele vai continuar fazendo isso comigo. Ele não tem misericórdia, nenhuma, de mim. Às vezes acho que Ian me despreza, profundamente. Não sei o que ele quer comigo. Nunca fui tão desprezada por ninguém como sou por ele. E é por isso que eu o amo.

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