Ano II

E aí sempre aparece aquela coceirinha “Mas e aí… É isso mesmo então? Tem certeza?”. Não, eu não tenho certeza. Há algum tempo acho que não preciso tanto dela assim. Mas por enquanto morar aqui tem funcionado. Meu tempo aqui não acabou e ainda preciso que São Paulo me dê uma lição ou duas: a ter mais agilidade na vida e a ser mais segura com uma coisa ou outra. Sei que é bastante irônico querer cultivar segurança e agilidade numa cidade onde essas duas coisas ou são precárias ou inviáveis, mas parece que vai ser isso mesmo. Na marra, como quase tudo na minha vida. Mas tudo bem, esse vai ser o meu currículo mesmo. Se eu quisesse conforto não estaria aqui.

Tenho uma memória afetiva ou outra por aqui, mas curiosamente nunca me deixei consumir por elas. Convivo com essas memórias pelos lugares da cidade, sem tanta afetação, sem maiores problemas. É como se tudo isso aqui já tivesse sido meu antes dessas memórias, como se eu já tivesse propriedade sobre tudo isso aqui. Então não há tanto drama, não há tanta dor, tanta euforia: existem apenas os lugares onde eu vou, sempre fui, sempre irei. Já fui absurdamente feliz nessa cidade e já me senti profundamente amada aqui. Tive momentos bastante ruins também, de tristeza e acho que a cidade combina com isso também. Me espelho nela quase sempre, acinzentada, melancólica. Me sinto acolhida nessas coisas. Tento extirpar dela através de algumas fotos, suas partes mais coloridas, sua geometria. Não sei se consigo, mas me divirto no processo e é isso o que importa.

Aprendi com uma música ano passado que São Paulo é a minha amiga mais antiga. É meu amor mais platônico de todos que já tive. Tão platônico e tão etéreo que terá que pra sempre ser redescoberto. E isso acontecerá cada vez que eu visitar um novo lugar e cada vez que eu tiver de sair com algum amigo pra fazer um passeio de turismo na cidade. E é um amor tão platônico que, mesmo estando aqui, é como se eu ainda não estivesse de fato. É como se eu flutuasse, como se sonhasse acordada, o tempo todo. Como se a qualquer momento eu tivesse que acordar pra outra realidade mais banal. Aqui acordo todos os dias uma estrangeira e esse é um sentimento brutalmente contraditório. Digo que é contraditório pois acho que no Brasil, até então, esse é o único lugar em que jamais me senti sozinha e jamais me senti desconfortável. Claro que eu sou uma pessoa adaptável e posso criar sentidos em outros lugares, mas não tão naturalmente quanto aqui.

Minha história com essa cidade é longa e eu sempre quis voltar pra cá porque acho que aqui é o meu lugar lógico no mundo: não me vejo, por hora, fazendo muito sentido em nenhum outro lugar.

Espero não parar de conseguir enxergar tanta poesia por aqui, principalmente nas coisas mais insignificantes.

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