Nymphomaniac

[Não quer spoilers, não leia.]

Uma tela preta como uma cortina a ser aberta e som de chuva, barulho de rua. Imagens frias, pedras e paredes azuladas, um buraco preto quadrado. Um sugestivo arame circular balançando com várias roscas. A suavidade do som da neve é quebrada pelos acordes de uma música que diz “guie-me”. Um completo estranho retira Joe, espancada, da rua e do frio, a leva pra casa e se propõe a ouvir a sua história. Os dois tomam chá com leite em um lugar aconchegante e a neve sempre persiste lá fora. Joe diz que é uma péssima pessoa e aí seus capítulos começam a surgir, pouco a pouco. Acredito que da trilogia, esse é o que mais me agrada, por hora. Digo por hora, pois ainda não vi a parte dois, talvez mude muito o tom.

Quando soube que o filme era longo, cerca de 2 horas, minhas expectativas ficaram menores ainda. Não gosto de filmes muito longos, é difícil prender minha atenção e ter o meu total interesse. Tentei me distanciar o máximo possível de todo o hype causado pelo von Trier, de todo o marketing sem sentido. Odeio essas coisas. Muitas pessoas que eu conheço ainda acreditam que trata-se de um filme pornográfico. Não é. Se quiser ver pornografia, poupe seu tempo e dinheiro, fique em casa, baixe seus filmes pornográficos preferidos ou entre no redtube, youporn ou xvideos. O máximo que Nymphomaniac oferece é soft porn.

Existem cenas boas e bobas nesse filme, coisas que adorei e coisas que detestei. Por exemplo, uma coisa que não gostei muito foram alguns cortes que considerei muito bruscos em algumas falas de Joe, enquanto ela conversava com Seligman. Não sei se isso foi proposital ou não, de qualquer modo, ficou estranho. Preciso assistir o filme outras vezes pra ver isso novamente. Vou falar das coisas bobas e que detestei primeiro.

  1. Na cena em que Joe começa a se questionar se está apaixonada por Jerôme tem um erro de tradução que me deixou um pouco chateada. Nessa cena, Joe fala das mãos de Jerôme e aparecem cenas dele manipulando vários objetos de sua mesa em seu escritório: uma bola de golfe, papéis, caneta, etc. Nesta exata cena, Joe diz “I wanted to be one of his things” que é traduzido talvez erroneamente para “eu queria ser uma das garotas dele”. Isso significa talvez que Joe quisesse não se deixar ser amada por Jerôme, mas se deixar ser objetificada por ele, ser objeto do desejo dele.
  2. Sinceramente, não gostei da cena do “mea vulva, mea maxima vulva“. Achei meio bobo, mas depois tentei pensar um pouco mais a respeito. A princípio parece que o von Trier apenas criou essa cena pra fazer esse trocadilho infame, mas é muito simplista pensar apenas nisso. Curioso: ao trocar culpa pela vulva, o que é que se obtém? Ou o que se pode obter? Troca-se, efetivamente, alguma coisa? Ter vulva é ter culpa? São muitas, as minhas perguntas. Joe desde o início do filme por se denegrir tanto, parece de um modo ou de outro se sentir extremamente culpada por tudo que fez e faz. Afinal, segundo ela própria ela é “um ser humano horrível”. Por que? Imagino que poderemos ter uma ideia melhor sobre isso assistindo à segunda parte.
  3. Acredito que entendi, mas não gostei mesmo da fotografia da cena em que o pai de Joe morre. Ficou ridícula, simplesmente. Achei uma cena barata, mesmo. Só canalha vai gostar. Mas mesmo já tendo acontecido muita coisa no filme, foi neste capítulo que eu vi a ninfomaníaca de fato. O pai de Joe estava morrendo, ela estava passando por um momento muito difícil e pra lidar com a situação ela trepava com os funcionários da lavanderia do hospital. Vício em sexo é a mesma coisa que vício em heroína, só que com uma agulha mais grossa. Quando o pai dela morreu, Joe disse “eu já não sentia mais nada”. Claro que não sentia, pois as experiências sexuais que ela tinha anulavam – ou no mínimo a distanciavam – da dor que ela precisava sentir. Por isso Joe não chorou com a morte do pai: ficou molhada. Esta foi a única lágrima que ela teve pra oferecer. Canastrão hein von Trier? Tsc, canastráço.

Também existiram coisas boas e que adorei no filme. Posso dizer que de modo geral gostei muito do filme, mesmo. Comentei que este parece ser, até o momento, o filme menos misógino do von Trier. Acredito que exista uma diferença entre ser uma protagonista e ser uma heroína (ou anti-heroína). Nos filmes anteriores da trilogia existiram protagonistas mulheres. E mesmo Joe parecendo ser uma anti-heroína, percebo que não senti uma empatia tão forte pelas personagens dos filmes anteriores (Melancolia e Anticristo), como senti por ela. Mas isto é referente apenas à primeira parte do filme, posso pensar diferente a partir da segunda parte. Mas isso eu só vou saber em março. De qualquer forma, cito alguns pontos que gostei bastante no filme:

  1. A relação entre Joe e Seligman é adorável, por hora. Ele coloca uma estranha dentro da casa dele e se esforça para não julgá-la, apenas para ouvi-la. Achei o filme bastante didático em relação às referências utilizadas, a pescaria (The Compleat Angler), Fibonacci (Jerôme), uma pintura (Mrs. H), Poe (Delirium), Bach (The Little Organ School). Para pessoas mais cultas isso pode ser meio bobo ou tedioso, mas pra quem desconhece, as metáforas utilizadas pelo Seligman como apoio às histórias de Joe são bastante interessantes.
  2. A cena do trem me fez pensar que todas as adolescentes que se prezem deveriam ter “um trem” para si próprias. É claro que alguns comentários (machistas?) dirão que esta foi uma espécie de treinamento para manipulação de homens e blablabla, etc. Mas pra mim há uma inocência absurda na coisa toda: se vestirem de forma vulgar, dar pra um trem inteiro e ter como prêmio um saquinho de doces. Assim como Seligman, não enxergo como algo ruim ou condenável, mas como uma busca mesmo. Por auto-conhecimento, por conhecimento do mundo ao seu redor, por prazer. Pelo que for. A busca é mais importante do que a passagem do trem ou o saquinho de doces. É se desembaraçar para poder saber viver, mesmo que seja por um período limitado. Hoje um trem, amanhã o mundo. Sem ressentimentos.
  3. A cena da sra. H é impecável. Uma Thurman está odiosa. Fiquei com muito ódio da personagem mais pela total falta de consideração dela com os filhos. Foi um misto de ódio e pena. O cinema inteiro ficou em polvorosa com essa cena em particular, mas é porque a situação toda é realmente muito constrangedora. No meio da conversa, Seligman pergunta para Joe: “e você, o que sentiu quando isso aconteceu?”. Ela se esquiva. Ele insiste na pergunta novamente, “não é possível que você não tenha sentido nada, você deve ter sentido alguma coisa”. E nesse momento eu vejo um espelho diante dos meus olhos: “para se fazer o omelete é necessário quebrar alguns ovos”. Os olhos de Joe, nulos. Jamais vou me esquecer dessa cena.
  4. No capítulo Delirium, a parte que achei mais obscura do filme, gostei do fato dele ter sido gravado em preto e branco. Se fosse gravado em cores, o tom das cenas jamais seria o mesmo. Primeiramente desconfiei que foi resolvido se fazer essa cena em preto e branco para envelhecer um pouco mais o pai de Joe. Mas depois reparei novamente e notei que fisicamente, mesmo em preto e branco, ele não parecia muito mais velho. Na verdade, ele não tinha envelhecido NADA em comparação às cenas que ele aparece com a Joe criança. Talvez essa ambiguidade seja proposital: mesmo que Joe já seja uma mulher, talvez no coração dela o pai dela não tenha envelhecido para ela, embora já esteja decrépito, etc. Quando o pai dela morre e a mãe aparece em cena, a mãe aparenta estar mais velha. O pai de Joe, já morto, ainda parece jovem. Por que será?
  5. A impressão que tenho é a de que Joe era extremamente metódica em relação à sua vida sexual. Ela exercia ora como um jogo de azar (que ela atraía e dispensava parceiros de acordo com o acaso), ora como um sacerdócio (fiquei com essa impressão no maravilhoso capítulo sobre a metáfora da polifonia). Para o momento, Joe não aparentou ser tão viciada como imaginei que deveria ser. A vida de Joe é invertida: para ela, a prisão não é o seu vício em sexo, mas justamente a possibilidade de uma vida banal e rotineira. O sexo é um escape desse tipo de vida. Mas ela tenta coexistir entre essas duas prisões: mesmo sendo viciada, Joe ainda caminha no parque e mesmo ao ar livre se aprisiona ao andar sempre pelo mesmo caminho. A busca se tornou circular.

Mais ao final do filme, Joe diz outra frase que me marcou bastante. Ela fala para Seligman sobre seus vários amantes e sobre como ao se relacionar com todos eles, acabava esquecendo nomes, confundido datas, trocando vozes, etc., ao final, ela diz algo como “tive tantos amantes, que é como se eu tivesse apenas um amante”. Um amigo com quem fui assistir o filme enxergou o seguinte: “É claro que ela teve apenas um amante: ela mesma. Ela é egoísta”. Entendi a frase de outro modo e não enxerguei nada de egoísmo na frase, pelo contrário, enxerguei generosidade nela. Mas há, de fato, essa ambiguidade. Se todos são meus amantes, alguém é meu amante? Seria esse amante a própria Joe? Não sei. Egoísmo, ao meu ver, pressupõe satisfação, meio que necessariamente. Qual é o objetivo de ser egoísta se você não vai tirar proveito nenhum disso? Fato é: Joe sofre. Ao final do filme, ao finalmente ficar com Jerôme, ela chora e diz “Eu não sinto nada! Eu não sinto nada!”. Seria isso a circularidade de um egoísmo banal ou o vazio de uma generosidade irrestrita?

Joe é uma incógnita até para si mesma. E é por isso que eu me identifico tanto, tanto, tanto com ela.

Por hora é isso o que pude perceber do filme. Pretendo assisti-lo mais algumas vezes. Já estou ansiosa para assistir a segunda parte. Da trilogia que tem sido feita (Melancolia, Anticristo) este é o meu preferido até então.

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