Mitológica

Não gosto de natal. Nenhum trauma, simplesmente não me importo com a data. Nesse natal devo passar dois dias com a minha família. Querer passar o natal com eles foi uma desculpa pra viajar, apenas. Ficarei com eles um dia e meio, talvez, não tenho certeza. Obviamente minha mãe vai querer que tudo aconteça nessas poucas horas. Quero que nada aconteça. Mas as coisas irão acontecer independentes das nossas vontades. Às vezes fico pensando nos meus sobrinhos. Eles não conhecem a tia deles e acho que nunca conhecerão de muito perto, nunca será por muito tempo. Será sempre esporádico, sempre rápido. E também não tenho muito jeito com crianças, enfim. Já estou acostumada com o fato de eu ser uma outsider na minha própria família. Não me orgulho, nem me envergonho dessa condição, apenas reconheço isso. Minha irmã me reforça que eles fazem questão de falar sobre mim sempre e J. me reconhece pelo computador quando me vê. É algo. Às vezes eu fico pensando que gostaria de ser mais participativa na vida deles. Outras que, na verdade, prefiro ser uma tia um tanto quanto relapsa, mesmo. Vou acabar sendo mesmo um mistério, uma recordação, um mito, talvez, dependendo das histórias que contarem sobre mim. O distanciamento ensina. Sempre me ensinou muito ao menos. Criação não é pra mim: eu só preciso estar ali, quando for possível. E estar ali não é pouca coisa, uma pena que pouca gente sabe – e se importa – com isso. Isso, na verdade, é tão importante quanto a criação em si. Na verdade é parte da criação. Serei um punhado de poucas memórias, um punhado de histórias contadas por outros, um punhado de letras em alguns livros. E um dia eu posso simplesmente desaparecer, como se eu jamais tivesse existido.

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: