This town is the oldest friend of mine

Há algum tempo comecei a usar o foursquare. É um aplicativo que se assemelha à um jogo e te indica lugares pra ir, etc. Ainda não sei mexer nele direito, mas apesar de toda a jogabilidade dele, ele é interessante. Não me importo com o jogo na real, desbloquear medalhas, prefeituras e essas merdas todas, mas acho interessante e possivelmente úteis algumas das informações que vejo compartilhadas por lá. Esses dias estava procurando indicações de lugares pra ir por aqui. Na verdade estou procurando isso há algum tempo. Aparentemente, segundo o aplicativo, eu já fui na maioria dos lugares que são interessantes pra mim (shoppings não são tão interessantes, enfim). “É isso? Zerei a cidade?”. Claro que não, idiota, aqui é uma megalópole e existem trocentos lugares que você ainda não foi e mais alguns vários que você nunca poderá ir ou porque você não tem dinheiro suficiente ou porque você é mulher e sozinha e pode ser perigoso.

Mas aquela sensação de vazio apareceu e de repente se instalou de tal forma, que me deixou um pouco inquieta. Aquela sensação que te diz de modo um tanto quanto malicioso “Mas e aí… Então é isso? É isso mesmo? Tem certeza?”. E vocês sabem exatamente do que eu estou falando. Me atire a primeira pedra quem nunca ouviu essa voz fazendo essa pergunta de tempos em tempos. Essa voz que vem do fundo da cabeça, sempre com um tom de deboche, com um tom de desprezo. Pra muita gente essa voz é gatilho pra ambição, pois é a tal da “síndrome dos dois anos” pra qualquer coisa: namoro, emprego, cidade. É meio ridículo. Bateu dois anos, essa voz aparece, com os questionamentos e com os consequentes “mas e se…?”. Algumas pessoas ficam inquietas. Outras são inquietas (e essas são hopeless: não sossegarão nem aqui, nem no Japão, nem em lugar algum, nunca). Dia 31 agora vai fazer dois anos que vim passar o ano novo aqui e até hoje não voltei pra onde estava.

Não parece que faz dois anos que vivo aqui. Semana passada decidi passar o ano novo por aqui pra comemorar a data, devo voltar de Porto Alegre correndo só pra isso. É sempre reconfortante voltar pra cá. Não me vejo morando em nenhum outro lugar do Brasil tão cedo. Acredito que tive sorte por aqui, para um início está sendo muito bom. Tenho conseguido sobreviver relativamente bem e com o mínimo de dignidade, mesmo sendo mulher e sozinha. Ainda me acho lenta demais pra morar aqui, talvez essa seja a lição da cidade pra mim (ela já me ensinou tantas). Algumas coisas são completamente novas pra mim, outras, nem tanto. Outras inclusive parecem que eu já vi antes, parece que conheço desde sempre, cada calçada, cada fluxo, cada nuance. Às vezes eu sinto como se eu tivesse me apropriado daqui bem antes de fazer parte disso. Talvez tenha sido isso mesmo: morei por nove meses dentro de alguém que morava aqui, em 1983 e 1984. É interessante pensar que isso pode ter tido alguma influência.

Vim pra cá depois, a passeio, com a minha mãe, várias vezes, várias lembranças. São Paulo pra mim não é perene, é como se fosse uma cidade movediça. Como se tudo que eu passasse aqui fosse um sonho. Difícil explicar. Tenho uma memória afetiva ou outra por aqui, mas nunca me deixei consumir por elas: convivo com elas pelos lugares da cidade, sem tanta afetação, sem maiores problemas. É como se tudo isso aqui já tivesse sido meu antes mesmo dessas memórias, como se eu já tivesse propriedade sobre tudo isso.. Então não há tanto drama, não há tanta dor, tanta euforia: existem apenas os lugares onde eu vou, sempre fui, sempre irei.  Já fui absurdamente feliz nessa cidade e já me senti profundamente amada aqui (e ninguém pode tirar ou vetar essas memórias de mim). Tive momentos ruins também, de tristeza e acho que a cidade combina com isso também. Me espelho na cidade acinzentada, melancólica. Me sinto acolhida nisso tudo. Tento extirpar dela através de algumas fotos, suas partes mais coloridas, sua geometria. Não sei se consigo, mas me divirto.

Eu aprendi com uma música esse ano que São Paulo é a minha amiga mais antiga. É meu amor mais platônico de todos que já tive. Tão platônico e tão etéreo que terá que pra sempre ser redescoberto. E isso acontecerá cada vez que eu visitar um novo lugar agradável e cada vez que eu tiver de sair com algum amigo pra fazer turismo na cidade. Espero não parar de ver tanta poesia por aqui, principalmente nas coisas insignificantes. E é um amor tão platônico que, mesmo estando aqui, é como se eu ainda não estivesse de fato. É como se eu flutuasse, como se sonhasse acordada, o tempo todo. Como se a qualquer momento eu tivesse que acordar, pra outra realidade mais banal. Aqui acordo todos os dias uma estrangeira e esse é um sentimento brutalmente contraditório. Digo que é contraditório pois acho que no Brasil, até então, esse é o único lugar em que jamais me senti sozinha e jamais me senti desconfortável. Claro que eu sou uma pessoa adaptável e posso criar sentidos em outros lugares, mas não tão naturalmente quanto aqui. Eu sempre quis voltar pra cá porque acho que aqui é o meu lugar lógico no Brasil: não me vejo, por hora, fazendo muito sentido em nenhum outro lugar.

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