Privacidade

Toda vez que eu falo que se a pessoa age de determinada forma é por causa de sexo, sou acusada de estar sendo rasa e superficial. Curiosamente, nenhuma das vezes que eu suspeitei disso estive errada e nem sei o básico de neuropsicologia. Mas por algum motivo entendo algumas poucas coisas. Não sou tão autônoma quanto gostaria, mas é um tanto quanto comum acharem que, se você ri muito e fala de sobre sexo sem maiores problemas, é porque você está se oferecendo. Enquanto isso os “chocados”, que me acusam de rasa e superficial, vivem na dissimulação, fazendo o que bem entendem por debaixo dos panos e muitas vezes evocando um moralismo no mínimo contraditório. Infelizmente, qualquer mulher que fale o que acha ou que sequer tenha a pretensão de ser autônoma é sempre rasa, superficial. É puta, como dizem. Acho que o maior fetiche hoje, época em que está (quase) todo mundo mais confortável em falar sobre sexualidade (e expor a sua própria), é mais do que enganar o outro: é enganar a si mesmo. A impressão que tenho é a de que, como a coisa descomplicou demais, as pessoas precisam complicar tudo para que as coisas pareçam estar em constante movimento. O curioso é que, para estar em movimento, essa complicação toda não é necessária. Compreendo a frase “todo mundo tem segredos” e entendo que existam pessoas que prefiram viver dessa forma. Só considero isso desnecessário, quando realmente se planeja qualquer tipo de convivência com alguém. Ainda é preciso saber ler, nas entrelinhas, o que o outro acha mais conveniente para si. Nas entrelinhas, claro: porque obviamente isso jamais será assumido pelo outro. Conversas francas são raríssimas, quase inexistentes. Me parece raro encontrar uma alma com quem eu possa conversar sobre isso. Ou melhor ainda: com quem eu não precise conversar sobre isso. O que funciona atualmente (ainda) é a Lei de Gérson aplicada à relacionamentos: as pessoas querem obter vantagem à qualquer custo e nada mais escapa disso. Fico tentada a acreditar que não é, de forma alguma, uma questão de privacidade como tentam defender, mas sim de (falta de) consideração para com as pessoas com quem se convive (e sua consequente objetificação). Tudo se torna ainda mais atípico e contraditório quando as pessoas em questão se autoproclamam muito liberais e libertárias, mas no entanto, quando isso é efetivamente proposto, não é o que se vê na prática. Não há uma via de mão dupla, existem camadas, existem nuances, existem mil desculpas e mil direitos. Quando qualquer coisa é insinuada ou até mesmo exposta, ou ficam na defensiva ou se tornam agressivas. Ora: ninguém quer ter o seu direito (fetiche) de dissimular ou de subjugar o outro censurado ou vetado. O que essas pessoas não entendem (ou talvez se recusem a entender) é que a autonomia que a consideração pelo outro traz não é restritiva, muito pelo contrário, é efetivamente libertadora. E muito provavelmente é essa possibilidade de libertação total o que os apavora, completamente. Acho que é possível amar várias pessoas ao mesmo tempo, não só possível como inevitável. Há algum tempo penso nesses termos e compreendo isso. Mas os fetiches sexuais de hoje em dia pra mim são bastante claros: a “privacidade” (propriedade) e, principalmente, a dissimulação (controle). E este último na verdade só reforça tudo de pior do que sempre houve, desde que o mundo é mundo e é um atraso… É o mesmo caso do ‘humor’ que insiste em se dizer politicamente incorreto, mas na verdade não passa de um modismo formuláico que reforça antigos preconceitos que já deveriam estar datados há algum tempo… Enfim… A quem se está querendo enganar mesmo?

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