Blue Jasmine, Jeanette e o grande botão vermelho

Se não quer spoilers, não leia. Você foi avisado.

Sempre gostei de finais felizes, mas de uns tempos pra cá finais tristes tem me incomodado cada vez menos. Foi impossível não me identificar com a história da Jasmine, de a vida dela ter virado um caos e ela ter ido morar com a irmã, Ginger, do outro lado do país. Curioso como apesar de elas se declararem irmãs adotivas de pais biológicos diferentes, a Ginger sempre dizia que ela “tinha os melhores genes”. O distanciamento entre as realidades das irmãs consegue delinear as personagens, mas a diferença entre as duas fica mais clara quando Ginger no início do filme diz “Jasmine quando vê algo que não gosta, tende a olhar pro outro lado”. Algo que é visto, mas finge-se que não se vê. Mas também é muito simples dizer que Jasmine vive uma vida de fachada enquanto sua irmã vive uma vida real. Não há vida real: existem pessoas, suas situações e o que elas fazem destas situações. Ginger casou, teve 2 filhos, tem uma vida mais prática, sem grandes ambições e preocupações e quando viu que estava se envolvendo com alguém que sabia que podia não ser bom, caiu fora na mesma hora. Jasmine também tomou suas decisões, abandonou a faculdade, acostumou-se com uma vida de riqueza, tornou-se uma pessoa cheia de não-me-toques e claro, acreditou profundamente no mito do amor romântico (“nunca ninguém me amou como ele”, disse no avião, etc.) e estava bastante acostumada e apegada à tudo isso. O que me aproxima da Jasmine é a sua profunda ingenuidade. Qualquer pessoa sabe que é um risco apostar tudo em algo que esteja externo à si mesmo, mas pessoas ingênuas tendem a fazer isso com frequência. E não só isso me aproxima de Jasmine como também a capacidade que ela tem de criar um mundo paralelo, apesar de nossos processos não serem os mesmos – ela se apega demais à fatores externos e mente para si mesma o tempo todo, mais tarde mentindo pra outras pessoas também. Na verdade Jasmine é uma farsa desde o começo porque na verdade é Jeanette. Ela não se assume não porque não tenha ninguém ali, mas talvez por um medo paralisante de viver, simplesmente. De viver não em seus sonhos, mas viver apenas. De aceitar as coisas e assumi-las. Jeanette resiste. E assim como Ginger sempre atraía ‘homens ruins’, o próximo homem que Jeanette atraiu (com meias verdades) foi justamente um futuro candidato à político – o que podemos imaginar que possa ter grandes chances de ser tão corrupto quanto o seu ex-marido. Mas ingenuidade não é burrice de todo: Jeanette sabia que seu marido estava envolvido em esquemas ilegais. Não sabia suficientemente de todos os detalhes, mas assinava sem ler o que lhe fosse pedido. E ela não se importava porque “o amava” (ah, o amor), pois sim, Hal era o “amor de sua vida” e principalmente porque também morria de medo de se imaginar abrindo mão da vida de luxo e conforto que levava. Ela era duplamente apegada logo o sofrimento foi duplamente intenso. Essa personagem possui uma ingenuidade ambígua, a qual conheço muito bem, que é a de realmente e efetivamente não saber o que acontece, mas saber que há algo acontecendo. Seja com os esquemas ilegais do marido, seja com a infidelidade dele. Deste último ela suspeita, porém, convenientemente prefere não investigar à fundo por puro e simples medo, até que isso seja descoberto da pior maneira possível: vindo à público. E é claro que num momento de extrema dor, confusão e tristeza ela resolveu apertar o grande botão vermelho. “Eu não sei se há um esquema ilegal, mas como sinto muita dor nesse momento, vou chamar o FBI e ele que se foda”. A dor era tamanha que ela inclusive se voltou contra si mesma, abrindo mão de seu mundo por isso (“se eu não posso tê-lo, então ninguém pode”, Carmen, Georges Bizet). Ingênua ou não, sempre há um grande botão vermelho e apertá-lo definitivamente muda tudo. É o que fazemos durante a loucura da profunda decepção, a total sensação de desespero e o total descontrole emocional. Chegar aí não é fácil, mas sair daí também não. E os desdobramentos a partir daí são variados: insônia, antidepressivos, álcool, viagens, enfim, a pessoa sempre tenta se virar como pode. Certo que Jeanette passou por muita coisa e vários tipos de tratamentos para tentar esquecer tudo o que lhe aconteceu. Mas me compadeci e entendi totalmente o final. É o que acontece, é real e é, mesmo, enlouquecedor. No caso dela, duplamente enlouquecedor: perder o grande amor e todo um estilo de vida (com todo o pacote que isso traz..). As cenas, todas, se repetem como um inferno em sua cabeça, os detalhes, as lembranças, uma morte em cada uma delas. Eu sei exatamente o que é sofrer isso. Uma realidade falsa que ela mesma inventou e ela mesmo, a cada frase repetida, tenta desconstruir, reconstruindo. Cada frase repetida é uma morte e uma ressurreição por dentro, repetidamente. E isso é loucura, mas ocorre, bastante. Com frequência. Mais do que as pessoas sequer imaginam. Acontece comigo, não no nível de loucura em público, mas no conforto do meu lar e consigo controlar esses pensamentos com meditação (ou denegação, como quiserem), para que eles não se tornem obsessivos e não me façam tão mal. Mas nem todo mundo tem a mesma disciplina. A partir daquele final ela pode ter virado uma mendiga e sei lá, se fodido pro resto da vida. Mas eu gosto de pensar que em algum momento ela voltou à si, teve um pouco mais de compaixão e tentou ser mais amável consigo mesma, depois de um tempo.

blue-jasmine-ending-scene

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: