No joy

I

Na mesa chegava uma fatia de torta de pão de mel e dois cappuccinos e então nós conversávamos sobre vícios. Sobre coisas e situações em específico que nos tornam pessoas viciadas, sobre não saber distinguir o que faz parte de nossa personalidade e o que é de fato um vício, sobre o fato de ser virtuoso demais também ser vício. Pessoas curadas demais, conscientes demais, etc. Aí ele me falou de alguns artigos que andou lendo sobre sensation seeking, que é quando indivíduos sempre buscam fazer algo novo e esse comportamento se torna viciante. É o frio no estômago ou simplesmente adrenalina mesmo. Ou às vezes é algo mais simples e lento mesmo, como malhar. Ou parar de malhar e voltar a fumar, ou comer doces, tomar café. Ou se apaixonar, como é pra alguns. O que importa não é tanto a quantidade de situações números, mas as experiências e os lugares para onde essas experiências nos levam.

II

Às vezes eu não entendo mais porque tenho determinados comportamentos. Me contradigo em essência: acabo fazendo para todos aquilo que jamais gostaria que fizessem comigo. Mas fazem. Fizeram, o tempo todo. Hoje, também faço. E descobri, da pior forma, que não existe – nem nunca existiu – motivo nenhum para que eu me sentisse culpada sobre qualquer coisa. Acho que finalmente me tornei uma incógnita para mim mesma. Gostaria que as coisas fossem mais simples, mas enquanto elas não se simplificam, vou vivendo, faço o que posso, fico na minha, deixo as coisas acontecerem. E acho que na medida do possível busco essas sensações, bem ou mal, as quero na minha vida – muita gente quer, arrisco dizer, todo mundo. E eu deveria aceitar isso, essa busca, melhor, mas ainda resisto. Resisto, mas nem sempre. Quando ele me falou que não estava mais ouvindo nada do que eu dizia, eu quis. E como quis.

III

Busco algumas sensações mas a verdade é que eu desejo que elas aconteçam, não precisam ser espontâneas, mas que sejam costuradas à mão, com agulha e linha na minha vida. Prefiro bordados à uma produção, seja em massa ou não. Essa minha simplicidade sempre entedia muita gente, me acham ordinária, medíocre. Para mim, tudo bem. Coisas simples pra mim sempre serão complexas, mas infelizmente (ou não, não sei) só eu sei enxergar isso, acho que não transmito muito bem para as outras pessoas. Acho que nem quero transmitir nada, são coisas minhas, o mundo é meu, é pessoal. Para mim, as coisas nunca são as mesmas. Tenho mania de pensar nas coisas ‘desde o começo’, sempre. Gostaria de, mas não tenho como evitar. Ontem assisti a duas apresentações num lugar onde fui pela última vez há 4 anos atrás. Pensei que me sentiria mal, mas isso não aconteceu. Alguns processos se revertem. Minha memória é ruim e, além de esquecer de algumas coisas eu mesma mudei. Tentei permanecer sóbria e consegui, mas a verdade é que não consigo mais ver shows como antes, como via em 2007, por exemplo. Acho que é porque me distraio demais. Não me envergonho mais em ser distraída.

IV

Sobre o Labirinto e confesso que não prestei muita atenção, de início. Depois tentei prestar atenção e percebi pessoas bastante preocupadas tentando fazer música. Era preocupação apenas, não burocracia. Imaginei que o som pudesse ter algo de labiríntico, mas não, nem tanto. Achei meio progressivo, meio metal, ambient, impossível ter uma denominação específica. Não é um som conciso, único, é possível identificar cada estilo utilizado durante toda uma música, por exemplo. E foi apenas na antepenúltima música que consegui sentir algo, e foi curioso, pois percebi que aquelas pessoas estavam gostando do que estavam executando e tinham simplesmente parado de se preocupar tanto. É quase como o que ocorre em filmes pornô: a gente quase sempre sabe quando aquilo está sendo simplesmente executado ou quando as pessoas envolvidas efetivamente gostam do que está sendo feito. É uma escolha, um modo de fazer as coisas. Fiquei pensando nisso: que, para algo ser bem feito, você necessariamente tem que ou se preocupar com o que é feito ou gostar do que é feito. Mas há quem acredite que o gostar, e tudo que advém disso – inclusive demonstrações de apreciação – é algo completamente superestimado. Às vezes pode ser, eu não sei bem dizer. Não gostei da última música pois houve um corte que achei muito brusco e eu me afastei, sem paciência. Mas enfim, foi só uma primeira aproximação… E primeiras aproximações não costumam ser boas, de qualquer modo.

V

É curioso ver ao vivo uma banda que já está costurada na sua vida, de uma forma ou de outra. Foi assim com o Nadja, ontem. Pra mim, o som deles era algo que eu já tinha vivido de outros modos antes de ver diante dos meus olhos. Geralmente usava como dispositivo de cura, de redução de ansiedade, pra meditação, às vezes eu ouvia e achava bonito, mas na maioria das vezes eu sentia mesmo. Inspirava, expirava, fechava os olhos e tateava pra ver onde e como aquilo tudo ia parar. Me esforcei para não ir para essa apresentação com expectativas que fossem muito além das minhas experiências – únicas, íntimas, minhas – e o que eu vi ali de fato foi uma parte ínfima de uma experiência totalmente controlada, pelo ambiente, por uma mesa, pelas pessoas, etc. As pessoas, o público que assistia, estavam mesmerizados com tudo, balançando na velocidade que fosse permitido configurar um balanço. Fiquei parada, observando. O Nadja, os músicos, não parecem gostar do que fazem, não parecem se divertir, nem nada disso. Digo que não parecem porque realmente eu não sei o que se passa. Eles apenas fazem o que precisam fazer, no joy required. O resultado foi bom, mas a experiência – ou a série de experiências – vai além de qualquer resultado, na verdade.

VI

Sou um bicho do mato. Sempre fui, difícil deixar de ser algum dia. Aquelas pessoas não me fizeram nada de mal, nem fiz nada de mal à elas. Mas não há vínculo e não tenho absolutamente nada a tratar com elas. Prefiro nem cumprimentá-las, melhor assim. Evito um constrangimento maior do que este que já existe. Meu papel na vida delas é completamente inválido, de qualquer modo. Não farei a mínima diferença.

28112013

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