Desrespeito

Eu já fui bastante desrespeitada na minha vida, por muita gente, inclusive por gente próxima, que me amava, etc. Isso é muito comum na verdade, mais comum do que imaginamos. Algumas vezes eu tive como me defender, mas na maioria das vezes, caso não rolasse algum tipo de chantagem pura e simples, eu ia ficar muito pior. Não gosto de chantagem, já barganhei com a minha própria vida e enfim, funcionou. É vergonhoso, mas é necessário. Na última vez que me senti desrespeitada parti para agressão. Para mim, isso é um fator limitante: depois disso, não há mais nada. Quando eu chego ao ponto de agredir alguém é porque o que quer que existia, acabou. Qualquer resquício de qualquer coisa, acabou. Sou pacífica, não gosto de confronto e se eu cheguei nesse limite, a tendência é sempre piorar. E eu não quero ser isso.

Não sei porque hoje tentei me lembrar da pior vez em que já fui desrespeitada em toda a minha vida e não pude fazer absolutamente nada a respeito. Nem chantagear, nem barganhar, nem nada, simplesmente aceitar o que acontecia na minha frente, impotente, sem poder fazer nada, sem ter saída. Na verdade existem dois tipos básicos de desrespeito: o das pessoas que a gente conhece e o dos desconhecidos. O das pessoas que conhecemos e convivemos, geralmente são contínuos e vão minando a relação ao longo do tempo até que as coisas mudem bastante (alguém ceda), ou a relação simplesmente deixe de existir, ou até que o desrespeito chegue em algum tipo de ápice (agressão física, morte, etc). Desrespeito de desconhecidos geralmente são completamente gratuitos, acontecem uma vez só e te desestabilizam ou te fragilizam ainda mais no momento.

Foi esse último que aconteceu comigo em junho de 2011. Depois de ter sido assaltada e agredida por um cara que era praticamente meu vizinho, fiquei com medo pois eu dava de cara com o maluco na rua várias vezes durante a semana. O rapaz era um nóia e, porra, natural, fiquei com medo dele mesmo que ele não fosse me assaltar de novo. Em se tratando de viciados em crack a gente não sabe exatamente o quê esperar. Mesmo tendo feito BOs em 2 delegacias – na universitária e na do bairro – ainda estava com muito medo e fui na delegacia do menor e da mulher. Eu estava com muito medo – nunca tinha sentido tanto medo em toda a minha vida – e estava desesperada. Queria que alguém tomasse alguma providência, mas aparentemente ninguém poderia prender o moleque porque ele não foi pego em flagrante e ele era de menor.

Enfim, fui buscar o que achava ser a coisa certa a fazer. Na delegacia da mulher, depois de esperar por muito tempo fui atendida por uma mulher, grávida, que começou a me fazer um terceiro BO. Falei que não precisava mais de papéis comprovando o que eu tinha sofrido, não queria reviver tudo aquilo pela milésima vez, o cara era meu vizinho, eu estava com medo e achava que ele poderia ferrar com outras pessoas, inclusive. Não fui ouvida. Disseram que não poderiam fazer nada a não ser que ele tivesse sido meu namorado, só aí poderiam expedir algum tipo de sentença que o proibisse de chegar a sei lá quantos metros de mim. Enfim, eu era uma mulher, assustada, sozinha, na delegacia da mulher e não estava sendo ouvida. Ela disse que o máximo que poderia ser feito era o BO e, mesmo contrariada e vendo que aquilo não iria dar em nada – pois eu já tinha 2 BOs que diziam a mesma coisa nas minhas mãos – concordei em fazer.

Ela começou a fazer as perguntas básicas e me perguntou a data em que ocorreu o assalto. Falei que ocorreu em 12 de junho. Ela soltou uma risadinha e disse “Nossa.. no dia dos namorados né? Vai ver ele estava procurando uma namorada, haha”. Sim: eu estava na delegacia da mulher e estava sendo atendida por uma mulher, grávida, que sim, fez essa piada com a minha situação. Não ri, não achei graça e tive que fazer uma força sobre-humana pra não estrangular uma mulher grávida na delegacia da mulher que fazia um boletim de ocorrência que não me ajudaria em absolutamente nada. Acho que essa foi a vez que eu mais me senti desrespeitada e impotente em toda a minha vida. Não pude fazer nada. Acho que essa foi a pior época de toda a minha vida, sem dúvidas. Sei que existirão épocas piores. Também sei que o desrespeito, pelo fato de eu ser mulher e pelo fato de eu estar envelhecendo só irão aumentar daqui uns anos.

Tudo o que posso fazer, hoje, é me proteger ao máximo para não ser assaltada novamente, nem passar por nenhuma situação de muito risco, pois caso algo aconteça comigo a verdade é que eu estou à minha própria sorte. Só sei que é horrível passar por um abuso desses num lugar onde você deveria se sentir protegida. Mas a verdade é que passamos pelos piores abusos, em maior ou menor grau, justamente nos lugares onde deveríamos nos sentir mais protegidos. Parece que a vida inteira é assim mesmo, mas ninguém nos diz isso logo de cara. Depois ainda me perguntam por que eu me protejo tanto, me protejo demais. Simples: porque eu sou sozinha. E mesmo que eu ‘arranje alguém’ algum dia, continuarei sozinha. Porque nascemos sozinhos e é assim que a vida está calhando de ser, até então.

Simplesmente porque se eu não me cuidar e não me proteger individualmente, ninguém jamais irá fazer isso por mim. Por isso, não posso me dar ao luxo de várias coisas, mas esse é o preço que eu pago por existir. Não posso me dar ao luxo de correr riscos e quando o faço, é sempre com muito medo. E também com muita culpa.

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