Estação Liberdade

Eu não sei tomar decisões difíceis racionalmente. Mas a verdade é que eu desconfio que ninguém saiba. Tomar uma decisão difícil é ir até o seu limite, o limite do seu mundo. Às vezes me ocorrem pensamentos sobre limites e limitações, isso tem acontecido por esses dias. Basicamente é quando a gente se depara com algo que não queremos, não sabemos ou não podemos lidar. As reações são sempre variadas, mas sempre as mesmas: as pessoas despirocam, para bem ou para mal. Lidar com uma decisão difícil ou com alguma limitação é o mesmo que recebemos uma carta e demoramos dias pra abri-la e ver o seu conteúdo (mesmo – e ainda mais – se já sabemos do que se trata… e quase sempre já sabemos do que se trata). Abrimos esta carta e não entendemos o significado dela (ou nos recusamos a compreender). Os dias se passam e tudo vai se movimentando. Abandonamos nossa casa, abandonamos o convívio com quem quer que seja. Lidar com limitação é lidar com aceitação. E aceitar (que acabou, que começou, que agora é pra valer, que agora é de verdade, que tudo era mentira, etc.) é difícil pra caralho. O que acontece quando vamos de um ponto ao outro é o que transforma as coisas. Mesmo o trivial, passar pela mesma estação de metrô, ir aos mesmos lugares, comer da mesma comida, beber da mesma bebida, quando há algo em jogo, nada disso mais é trivial. Tudo se torna diferente, no caso, mais escuro, as pessoas desaparecem, pouca coisa faz algum sentido porque você não quer mais que nada faça muito sentido. Você precisa disso.

mario-estação-liberdade03O escapismo é pra fracos, mas negar que isso seja um tipo de potência é uma burrice, simplesmente. Quando tudo na nossa vida atinge uma perspectiva onírica, podemos fazer absolutamente tudo o que queremos, sem restrições. É uma loucura permitida, damos um desconto, uma abertura à nós mesmos, por todas as merdas que tivemos que aturar por muito tempo. Escapamos, sonhamos e principalmente: agimos em relação a isso. Isso é perigoso e excitante. E se isso não é potência, eu não sei o que é. O mundo real, as contas a pagar, a família, aparecem insistentemente, brilhando na tela do celular e as palavras “casa” e “amor” nunca tiveram tão pouca importância como agora. A sensação de olhar para aquela tela é a de completo estranhamento. Não reconhecemos nada ali. Quem são essas pessoas e por que estão tentando me ligar? O que eu teria a dizer à elas? Que realidade é essa? Não pertencemos mais, é a destruição total da identidade, do afeto, dos valores, das memórias. Não entendem que essa destruição é na verdade a mais completa imersão e construção, e que faz parte do todo, dos resultados. Abandonar a casa e a família (ou o que o valha). Ir morar no Hotel Glória. Beber, perder a direção e o senso de qualquer coisa. Passar por entretenimento vazio. Comer a recepcionista do Hotel Glória. Fumar ópio. Ir até o fundo do poço. Eu já passei por tudo isso e um pouco mais e por muito menos. Não da forma como vi na tela, mas enfim, ao meu próprio modo, por isso a identificação. Só quando realmente não há mais escapatória é que finalmente lemos – ou no caso pedimos para que alguém leia e traduza – a maldita carta. E só aí talvez passamos a entenda-la. Pra só aí aos poucos começarmos a aceitá-la. Vez e outra eu também recebo uma carta dessas. Às vezes me devasta mais, outras nem tanto. Nunca é difícil o suficiente para me destruir, mas é sempre o bastante para me refazer por inteira.

mario-estação-liberdade01Descobri essa noite que, quando tenho a possibilidade, me colocar em direção à uma situação mais extrema me faz ter uma decisão mais acertada. Acredito que se eu me sentisse menos sozinha, mais amada, mais amparada, provavelmente tomaria uma decisão que seria bem menos pensada. A verdade é que eu não gosto de decisões fáceis ou simples. Mudo de cidade. Mudo de vida. Compro passagem só de ida. Dispenso oportunidades que algumas pessoas dariam tudo para ter. E nada disso vem fácil, pra mim. Noite passada eu sofri bastante. Me obriguei a não dormir até estar com uma decisão bastante clara na minha mente. É curioso… Sofro tanto com meus relacionamentos pessoais que não deram certo, mas quando se trata de algo que é minha inteira responsabilidade – meu trabalho, por exemplo – o sofrimento se modifica, toma outra forma, outra dimensão. É um sofrimento seco, áspero… E muito, muito pior. Mil vezes pior do que qualquer dor de amor. É a hora em que percebo que estou realmente sozinha nisso tudo. Pessoas vêm e vão, mas eu estou sempre aqui, comigo mesma, sob minha própria responsabilidade. É diferente. Preciso ser dura. Preciso criar uma postura (palavra que tem me perseguido há alguns dias). Não dormi, fiquei acordada e no final, tomei uma decisão com as minhas entranhas e jamais tinha me sentido tão certa sobre alguma coisa na minha vida. Nunca acreditei na minha intuição. Nunca. Nunca dei ouvidos à ela com tanta convicção. Mas desta vez estou indo contra tudo o que é racional e apostando nela. Posso me foder, mas vou fazer isso. Posso me foder, mas estou aqui pra isso. E vou fazer isso agora. All in.

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