Não há

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“Há, na literatura de origem espanhola, dois autores clássicos, que são Santa Tereza de Jesus e San Juan de la Cruz, aos quais Lacan faz referência, especialmente a Santa Tereza, a quem cita com frequência. A ela em particular, porque quer marcar o diálogo dela com Deus. Lacan foi um dos que mais enfatizaram que temos de conhecer as religiões e ver o que ocorre sobre esse bom e velho Deus, como ele o chama, ou seja, é necessário entender esse diálogo tão especial com esse velho Deus e o modo como aparece no corpo – nós o traduzimos como grande Outro -, porém fundamentalmente em sua aparição sexuada. Quer dizer, as leituras dos místicos indicam praticamente momentos orgásticos, que são articulados a momentos de dor, de castigo, de penitência. E também essa maneira de renunciar aos prazeres para articular-se a esse gozo do Outro, que não existe, e tentar escrevê-lo. Aí a importância que tem o Escrito como modo de tentar passar ao Real essas experiências místicas; por isso Lacan lhe dá tanta importância e insiste que se trata de outra dimensão que a psicótica, ou seja, que aí não haveria forclusão do Nome-do-Pai e seria um tipo de gozo mais feminino, mas não da mulher, feminino no sentido de invocar o suplemento fálico. Fazendo uma pequena digressão, diria que a usual ligação entre um neurótico e um perverso acontece justamente porque o perverso vem prometer ou encarnar um gozo adicional a respeito do neurótico. O neurótico quer ser perverso; busca por um suplemento ao gozo fálico. É esse querer transcender que, na fantasmática do neurótico, é inclusive usualmente dirigido como um pedido ao analista: “Como é que ele pode e eu não?”. O perverso é usualmente, como se diz, um gozador, mas Freud mostra que se trata antes de um pobre diabo, mascarado de hiperprazer.”

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