Claustro

I

Me isolo quando estou na tpm. Neste final de semana, dois dias ensolarados, eu me enclausurei totalmente. Não me sentia bem. Não me sinto bem na verdade, há alguns dias. Não quis ver ninguém. E então foi assim: dois dias inteiros ouvindo algumas músicas, mas sem ouvir o som da minha própria voz. Nunca saio com as pessoas e eu nunca dou desculpas para não sair. Sempre digo a verdade: não estou a fim. Gosto das pessoas até, mas sempre estou a fim de muita pouca coisa. Faz parte da minha flêuma. Dessa vez eu também disse a verdade: eu estou de tpm, eu não estou bem, não vai rolar. Aprender a dizer não é mesmo uma bênção, mas é preciso cuidado porque de bênção pode ir à vício muito rapidamente. “Mas talvez se você sair você melhora”. Não gosto quando insistem. Desapareço quando insistem. Isso não vai acontecer, acredite em mim. Eu não vou melhorar só pelo fato de botar os dois pés pra fora de casa. Se eu sair, vou me odiar ainda mais por fazê-lo. E ao chegar ao lugar de encontro, onde a saída acontece, vou querer voltar pra casa o tempo inteiro, o mais rápido possível. Vou ficar com uma cara horrível. Economizo as pessoas que se prestam a conviver comigo disso e principalmente me economizo disso, desse tipo de situação. A ansiedade não acontece apenas por conta da tpm mas é agravada por vários fatores externos. Estou fragilizada e eu tenho o maior respeito por isso. Me permito estar assim, vou até o fundo. Gosto de ir até o fundo disso tudo. Prefiro. Fico por ali. Exploro. E volto melhor. É melhor assim do que eu sair e cair em prantos no meio da rua. Preciso de espaço, mereço esse espaço pra me recompor, pra colocar as coisas no lugar novamente. Mesmo que não consiga.

II

Ansiedade é sempre uma merda. Me faz cozinhar demais, comer demais. Bem, foram os paraísos artificiais mais próximos que encontrei e que me fazem mal sim, mas mais a longo e médio prazo. Não fumo, não bebo (só para afogar mágoas – e nunca resolveu), não uso drogas: eu como. Em lugares diferentes, em casa. Mas não gosto de me arriscar na rua a não ser que eu saiba onde estou indo. Me aventuro, mas é raro. Compro coisas no mercado e cozinho. Cozinho pra mim mesma, ninguém mais. Cozinho, cozinho e cozinho. E como. Cozinhar ajuda a diminuir e a aumentar a minha ansiedade ao mesmo tempo. É o circulo vicioso perfeito. Diminui a ansiedade porque como. Aumenta a ansiedade porque, durante o preparo, pestanejo. Lembro de situações, revivo situações inteiras na minha cabeça, relembro de coisas ruins, de sentimentos ruins, de sensações horrorosas. Cozinho talvez como um modo de exorcizar isso tudo de mim enquanto preparo. Mas às vezes esses pensamentos não vão embora. Não consigo me liberar deles. Ainda. Não consigo pensar em outras coisas também. Digo, penso em outras coisas. Em várias outras coisas. Mas os pensamentos ruins são sorrateiros e persistentes. Queria poder me livrar deles. Queria mesmo, acredite em mim. Me parece que pra me livrar destes, terei que arranjar outros. Descasco, pico os alimentos, refogo, cozinho, asso, penso, olho o tempo, as medidas. É uma distração concentrada e uma concentração meio difusa. Enquanto cozinho, eu não estou realmente cozinhando: estou alimentando o meu rancor. E quando me alimento, quando como, o rancor desaparece. Deus, eu preciso me livrar disso… Eu quero me livrar disso. Só eu sei o quanto. Mas algum dia vai passar. Tenho essa certeza comigo. Já passou uma vez, desta vez não será muito diferente: vai demorar alguns anos, mas eventualmente deixará de fazer sentido e consequentemente de existir, como se jamais tivesse existido. Só de pensar nisso já sinto um alívio imenso. Mas por hora, o rancor permanece.

bordado

III

Ontem estava pensando que eu gostaria de ser mimada, mas ao mesmo tempo entendi que este é um desejo que nunca vai se realizar pelo simples fato de ser desejo. É um tanto quanto histérico, eu sei. Queria ser mimada, que alguém fizesse algo por mim, pra mim, alguma coisa assim. Queria que alguém viesse cozinhar pra mim. Queria não precisar fazer nada por mim mesma, uma vez só. Não precisava ser nada grandioso na verdade, podia ser ovos mexidos, já estava bom. Podia ser ouvir minhas lamúrias e concordar comigo. Queria não ser julgada, só colocada no colo e que alguém dissesse “eu te entendo, agora se acalme que isso vai passar”. Só uma vez. Queria não precisar engolir choro, queria ter alternativa à precisar ser forte o tempo todo. Queria ser vulnerável pra alguém. Queria algo consciente, algo real. Algo que me dissesse com todas as letras “Dora, eu fiz isso pra você”. Sem sentimentalismos e sem sentimentos porque o que a gente sente não é uma escolha, nós apenas sentimos. E eu queria que alguém me escolhesse, se decidisse por me mimar. “Isso é para você, é de mim para você”. Queria que isso acontecesse na hora certa e no momento certo. Jamais acontecerá. Na verdade pode até acontecer, mas jamais se realizará. Mesmo que fosse na hora e no momento certo, eu desejo, mas não permito que este mesmo desejo se realize: permito apenas que permaneça desejo. Desejo desejar, não ter. Quando tenho é ok, é bom até. Mas ainda: não é desejo. É como se me atravessasse, passasse por dentro de mim e saísse do outro lado. Não permanece. O desejo é mutável mas perene, permanente. Sempre estamos desejando algo, alguém, alguma situação. Ele muda, se transforma.. Mas está sempre ali, à espreita. Isso me fascina mais do que qualquer coisa. O desejo, o sonho, o intangível, o que não está ali, o que ninguém vê, o que se repete, os padrões, as formas. O conteúdo a gente sabe que é sempre o mesmo, essa encheção de linguiça da existência (um dia as pessoas vão perceber isso). Mas eu gosto mesmo é de todas essas outras coisas.

IV

Me sinto debaixo d’água boa parte do tempo. Sempre me falta ar. Por mais que existam mil coisas acontecendo sempre parece ser essa morosidade. Mas acredito que isso seja temporário. Que seja mais temporário do que eu imagino. Tenho planos conflitantes. Precisarei de mais tempo pra mim, mas ao mesmo tempo, não posso me dar ao luxo de perder tempo. Não sei se vou poder escolher. Dependendo de como as coisas acontecerem, não poderei escolher. Em algumas semanas as coisas estarão definitivamente diferentes, independente disso tudo. Não sei o que pensar. Lembro do que me foi dito. Não sei se acredito. Tenho acreditado, mas não sei bem até que ponto. Não penso nisso. Não gosto de pensar nessas coisas. Quero deixar estar. A realidade pode ser outra quando acontecer, por isso não é bom ficar pensando muito, tentando prever. Não é possível prever nada aqui. Não consigo imaginar, nem visualizar nada. Não fico pensando em como pode ser, minha ansiedade não trabalha tanto em relação a boas perspectivas. Talvez seja melhor assim. Não deliro: na verdade sempre acho que pode ser uma decepção. É bom não manter expectativas e não as mantenho mesmo. Quando é assim prefiro penar no que tenho agora mesmo: o tipo bom de solidão; 3h49 (2h49), olho pela minha janela e a noite está o mais escura possível, um breu; janela aberta, tempo agradável, fresco sem estar frio; unhas pintadas e roídas; chá preto, chá de hortelã, minhas formas disfarçadas de fumar; livros de Do In e reflexologia; escalda pés com sais e bolas de gude; um pequeno planejamento de meditação antes de dormir: deixar alguma música que seja familiar tocando bem baixo, quase inaudível, deitar de barriga pra cima, inspirar e expirar; ir tateando, aos poucos, com a minha audição a música quase inaudível, inspirar, que ora se ouve, expirar, ora se esquece; ir mais fundo, continuar tateando, inspirar, continuar buscando, expirar; não pensar em absolutamente mais nada e atingir um relaxamento quase pleno, se tornar levemente consciente novamente, sentir a música entrando em cada poro, inspirar, tatear, esquecer. Deixar de ser. Tornar-se. Dormir.

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