Exagero

São Paulo é a cidade do exagero. Aqui tudo é grande, tudo é longe, tudo é demorado, tudo é muito caro. Não fosse, não seria São Paulo. Mas agora falo de comida. Aqui não tem só comida como em qualquer outro lugar do Brasil. Aqui tem MUITA comida. Tem comida PRA CARALHO. E tudo é um exagero. Sanduíche de mortadela com 10cm de mortadela gordurenta. Pratadas e pratadas de macarronada com molhos fartos. Beirutes do tamanho do universo. O curioso é que é nas lanchonetes ‘de pobre’, ou ‘de mortais’ ou de gente comum (as lanchonetes não-gourmet) é onde os lanches são ainda maiores para aplacar a fome do paulistano. Quanto mais gourmet é o lugar, menos comida vem no prato, mas isso não é exclusividade daqui, é no mundo todo. Hoje eu estava pensando sobre esse exagero, de tudo, mas principalmente de comida. Tem uma lanchonete perto do meu trabalho na Alameda Santos onde sempre vou, mesmo sabendo que o sanduíche é imenso e que não consigo dar conta. Sempre vou e sempre peço um com fritas. As fritas sempre sobram, em quantidade. O sanduíche, dependendo do meu dia, sobra a metade. Isso porque eu sou uma glutona que sempre come pra caramba. Mas simplesmente não consigo vencer. E nunca deixo a comida lá, acho meio criminoso mesmo (neura desenvolvida por anos a fio). Enfim, sempre levo a comida comigo, afinal, eu paguei, não quero que vá pro lixo simplesmente. O lance foi que eu aprendi que, mesmo levando a comida, eu jamais vou comê-la depois. Não tem como comer batata frita DEPOIS. Ninguém faz isso, é ruim, não gosto de coisas que não são frescas. Claro que São Paulo, por hora, me deixou mais gorda: é muita novidade, muitos restaurantes, muito de tudo. Mas ao mesmo tempo me deixou mais comedida também: não me obrigo mais a comer TUDO o que vem no prato. Sou mais seletiva nos pedidos. Tento ser menos exagerada em vários campos da minha vida: o exagero da cidade compensa o meu. E, principalmente, o que mais gostei até agora: o exagero da cidade agravou a minha generosidade. Apesar de sempre levar uma quentinha da comida comigo, o que acontece é que eu sempre dou essa comida pra mendigos ou trabalhadores de rua, jamais deixo pra mim mesma porque detesto deixar a comida “para depois”. O que está fresco deve ser comido no momento e acho este um imediatismo bem positivo. Já fiz isso de dar comida para pessoas na rua várias vezes esse ano. Ter o privilégio de doar comida fresca a desconhecidos que precisam e ver a expressão de gratidão deles alimenta a minha alma.

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