Observações

Existem algumas coisas que eu não entendo. E outras que preciso explicar.

I.

Ontem eu estava na Avenida Paulista, ali no Trianon-MASP, cansada, no começo da noite, esperando o ônibus para ir pra casa. Próximo a onde eu estava, passava um casal de namorados, dois meninos. Eles eram bem jovenzinhos e por isso me chamaram a atenção. Eram bonitos também, pareciam felizes. Senti inveja. Quase sempre sinto. Eles estavam passeando de mãos dadas e de repente se beijaram. Nada demais, só um beijo. De repente passa um cara por ali, ele está andando, meio que com pressa. Vê os dois meninos. Fixa o olhar neles. Observo. O cara praticamente anda até o final da quadra, torcendo o pescoço para olhar para trás e ver o casal de namorados ficando juntos. E sim, ele fazia isso ao invés de olhar pra um monte de mulher bonita que passava na Paulista àquela hora da noite.

Eu não entendo.

II.

Estava andando com ele pela Liberdade. Justo ele, tarado por japonesinhas lindas, etc. Era domingo, a Galvão Bueno lotada de gente, vários asiáticos. Várias asiáticas. Algumas bem bonitas até, também notei. Eis que estamos andando até o restaurante e no caminho passa um casal, dois homens, abraçados um ao outro, apenas. Nada demais mesmo. E ao mesmo tempo que esse casal passa, também passa uma das orientais mais lindas que eu já tinha visto no dia até então: cabelos longos, uma mecha vermelha, a menina era linda, parecia uma modelo. Adivinhem em quem ele reparou? No casal de homens abraçados. Rosnou alguma babaquice, os chamou de viados, alguma merda assim. Comentei: ei, você viu aquela japonesinha linda que passou? Ele disse que não.

Claro que não. Não entendo.

III.

Às vezes tenho minhas dúvidas se homens assim gostam mesmo de mulher. Claro que eles acham mulheres fisicamente bonitas e tal (mas só as gostosas, as gordas e feias não), mas na verdade, no fundo mesmo, a mulher só serve a eles como adereço. Afinal bater punheta dentro de alguém é melhor do que ficar só na mão. Mas é isso. Eles não gostam de mulher de verdade. Só gostam das que os servem e/ou servem de adereço em sua vida, separando-as quase que totalmente dos seus reais interesses. Tudo bem, eu concordo que nem todo homofóbico é machista/misógino, mas é bastante razoável dizer que essas duas coisas andam juntas muitas vezes. O que explica muita, mas muita coisa.

IV.

Minha reação quando vejo um casal de homens ou um casal de mulheres na rua é olhar pra ver se eles estão mesmo de mãos dadas ou algo do tipo. E todas as vezes que vejo acho corajoso. E acho triste o fato de suas pessoas simplesmente se gostarem ter de ser um ato de coragem. E às vezes olho também com inveja, pois eu não tenho ninguém pra abraçar ou sair de mãos dadas por aí. Este olhar com inveja às vezes causa uma má impressão de recriminação. Mas não é homofobia não, é que eu sou uma frustrada e mal amada mesmo. Mas só um olhar não é o suficiente para explicar isso. Não me importo com mãos dadas, abraços e selinhos. Mas não curto ninguém se comendo na minha frente. Nem cachorros.

V.

Também olho para travestis às vezes. Na verdade, às vezes não tem como não olhar: algumas são tão caricatas, que não tem como passarem desapercebidas. A impressão que tenho é que elas querem mais é ser olhadas, mesmo. Mesmo assim, sempre me esforço para segurar o riso. Outras eu olho porque tento desfazer a confusão na minha cabeça: elas parecem mesmo mulheres. Algumas são muito bonitas, por isso também olho. Às vezes eu sinto inveja por serem mais bonitas (mais mulheres) que eu. De qualquer forma sinto medo, pois já fui hostilizada por travestis apenas por olha-las. Mas entendo o ódio delas: foram hostilizadas com olhares reprovadores a vida inteira e então, depois de um tempo, passaram a hostilizar qualquer olhar. Triste, mas é verdade.

VI.

Essa hostilidade de alguns homossexuais e transsexuais é compreensível, afinal essas pessoas foram reprimidas a vida inteira por serem quem são. É compreensível, mas não é aceitável uma vez que eles se colocam no papel de hostilizadores e aí generalizam. Eles precisam entender que nem todas as pessoas do mundo são homofóbicas. Certa vez em Florianópolis estava voltando de uma balada de madrugada, estava no ônibus voltando para casa quando o ônibus pára no sinal, que fica em frente a uma boate GLBT da capital. Havia uma escadaria e vários casais de gays e lésbicas se beijando. Eu, sozinha, bêbada e deprimida dentro do busão comecei a olhá-los. Não os odiei, não tenho motivos pra isso. Só fiquei com invejinha mesmo: queria eu ter alguém aquela hora da madrugada pra beijar. Em questão de segundos eles começaram a me xingar e a mostrar o dedo do meio pra mim. Assim, gratuitamente. Achei curiosíssimo.

VII.

Acho que se algo/alguém nos incomoda por algum motivo, precisamos descobrir o porquê disso e tentar não ficar reprimindo terceiros por conta de algo que está dentro de nós. O preconceito é sempre disfarçado ou tido como nada demais e as pessoas agredidas sempre tem que aguentar essa merda como se não fosse nada. Sei disso porque sofri bullying a vida inteira e essa é a dinâmica. É ridículo. É uma merda. Não gosto de encheção de saco gratuita e isso é no geral, independente de ser homofobia ou não. Não curto gente escrota independente de sexualidade. Simples assim. Não gosto de piadinhas infames, de olhares tortos, de caras de cu. Ninguém pediu pra vir pra essa merda de mundo então te fode aí filho da puta: você vai ser obrigado a conviver com todo mundo que é diferente de você até você morrer. No mais, resuma-se à sua insignificância é vá cuidar da sua vida e dos seus recalques. Porra.

Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: