Riqueza

Fui a pé para o trabalho hoje. Voltei pra casa pra almoçar, a pé. Passei o dia analisando, compreendendo, interpretando palavras, encontrando sentidos. Conectando. Protegendo. Criando. Voltei pra casa a pé e por alguns instantes, por umas duas quadras de caminhada, acredito, me senti bem. Foi incomum. Me senti muito bem. Me senti quase feliz, realizada mesmo. Parecia que não era eu, mas outra pessoa. Outra pessoa dentro de mim. E eu não queria outra coisa. “Não queria outra coisa”, ficava pensando “Não queria outra coisa, quero exatamente isso“. E tudo pareceu bonito mesmo, por algum tempo. Eram 18h15, ainda estava claro, um pouco de cansaço mental, minha casa a uns 5 minutos daquele pensamento. Fiquei feliz, independente de qualquer coisa. Não pude evitar: simplesmente senti isso (e sentir é mais forte que qualquer outra coisa). Tudo parecia estar em seu lugar, o mundo inteiro parecia estar organizado, equilibrado, todos os planetas pareciam estar alinhados, etc. Tudo parecia estar muito certo. Queria congelar ali, naquela volta pra casa, naquele caminhar despreocupado, naquele momento, naquele que agora sei que era apenas mais um simulacro de felicidade. Penso que queria estender aquele momento. Que queria sentir aquela completude sempre, o tempo todo. Queria poder sentir que nada me falta, mesmo quando tudo está em ruínas. Penso que quero isso, mas na verdade mesmo, não quero. Há o desejo, há sempre o desejo. Mas pra que continue desejo a impossibilidade de realização é sempre essencial. Por isso amores não correspondidos são sempre os mais duradouros. Por isso relacionamentos que não vingaram tornam-se pílulas douradas na mão de quem lembra (e quem ainda ama). Algumas pessoas só amam aquilo que jamais podem ter (não por não conseguirem, mas por não quererem, de fato). Eu não posso ser feliz. Ninguém pode. Mas alguns fazem questão de serem miseráveis. Eu, por mais que não pareça, não. E enfim, tudo isso de bom que eu senti hoje, como sempre, passou. Talvez tenha sido algum tipo de química repentina na minha cabeça, algo assim. Now I am an animal, now I am a fucking chemical. Passou como absolutamente tudo passa na vida (até os amores mais terríveis, doloridos e impossíveis de esquecer) e eu entrei na fila do pão das 18h. E notei de novo que vivo e trabalho em São Paulo.

E aí eu não senti mais nada.

E isso também foi bom.

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