Limites

O que fazer quando quem se é se encaixa perfeitamente no estereótipo ao qual você combate? É difícil afirmar “eu nao sou assim” quando tudo o que se faz demonstra, por meio de como você é capaz de agir, exatamente o oposto disso. “Ajo assim porque te amo” é a maior mentira do mundo, sempre foi. Todos sem excecao – me incluo na lista – no fundo, por trás de todas suas acoes supostamente amaveis e altruistas, agem sempre em beneficio proprio. “E por que você tenta mudar isso?” ela me pergunta.

E me demonstra toda a extensao do limite, da limitacao.

Mas demonstracoes geralmente nao sao suficientes. Precisamos passar pela experiencia do que é ou do que pode ser o limite.

“Voce nao pode” é o que deveria ser dito e nao é. Mas eu compreendo. Eu resolvo completar o pensamento desta forma: “eu nao posso”, porque é o que me parece mais plausivel, mais palpavel mesmo. Nao posso mesmo. Nao tenho condicoes. E nao me resta nada alem de aceitar isso. E tudo nessa vida sao limitacoes. Imensas. Intrasponiveis. Nao ha cuidado, nem nenhum tipo de altruísmo. Nao há amor. Existe apenas essa vontade de poder, de possessao e controle, apenas. Reconhecer isso é a parte mais difìcil. Tentar parar de acreditar que se pode mudar isso é outra parte ainda mais difícil.

“Gostaria de poder compartilhar isso com ela”, disse. Pois bem, você nao pode. Acho que o grande tom da minha vida é sofrer severas privacoes emocionais e de relacionamento. Essa é só mais uma. Nao posso compartilhar novidades, anseios, desejos, vontades, sonhos pois uma vez compartilhados a chance de que sejam sumariamente arruinados é bastante alta. Talvez possa em alguma outra vida, pois nao será nessa que irao me ouvir e me deixar compartilhar nada referente ao que eu sinto e as minhas mazelas emocionais. A nao ser que eu esteja em uma sala, sob tratamento e que seja pago. É triste, mas isso é realmente tudo o que tenho e acredito fortemente que será tudo o que terei por muito tempo.

Me sinto vazia, destituida de algo que poderia ser importante pra mim. Sinto que jamais serei ouvida de verdade e isso é quase que como se eu nao existisse. Nao me sinto humana. Sinto que me relaciono com outras pessoas por conveniencia, nao por paixao, pois nao sou ouvida. E parece que realmente tudo se resume a isto (conveniencias) e que nao há como ser de outro modo. O resto é fachada: fachada de amor, fachada de interesse… Existem várias.

Nao posso ser como quero. Nao posso me entregar a alguem como quero. Nao posso dizer o que gostaria, nem compartilhar o que gostaria, pois serei ignorada sempre: nas minhas buscas, na minha ignorancia, nos meus questionamentos. Na busca por mim mesma, por quem eu sou, a vida é esse grande empecilho. A vida inteira é um grande fingimento e quase tudo é completamente insincero. Só isso já é o suficiente para me fazer querer ter outra vida que nao essa. Mas este seria um outro isolamento quase que equitativo. Fugir para as montanhas, raspar a cabeca, fingir que nada existe me seduz quase tanto quanto a morte.

Sofro duplamente. Sofro de saudades de algo que jamais tive e por ter de reprimir violentamente tudo o que sinto, tanto em intensidade quanto em frequencia, por se tratar de uma ilusao, de algo nao concreto, irrealizavel, impossivel. E sofro por ter de me obrigar a continuar vivendo tudo isso e passar por sucessivas provacoes que nao me ensinam e muito menos libertam de nada. Minha vida nao poderia ser um pouquinho menos pior? Nao pedi pra estar aqui. Sério.

É a nossa estacao, vamos saltar. Descemos, juntas para o lado errado da saída na estacao central. É o suficiente para uma agressao, para varias agressoes sucessivas, para acusacoes sem sentido, lembrancas de nada que exista mais. Cravei-lhe o meu olhar mais impiedoso e fiz a pergunta que ja me foi feita varias vezes “o que você quer de mim?”. “O que eu preciso te dar para te satisfazer?”. Eu nao gosto de ouvir essa pergunta. Eu nao gosto quando me fazem essa pergunta. Nao ouvi resposta dela porque, na verdade, mesmo, nao há resposta pra isso. Este é o limite.

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